Salman Rushdie em Pordenonelegge: 'A dúvida guia para a verdade' — entre memórias, amizade literária e o ataque de 2022

Salman Rushdie em Pordenonelega: a dúvida como via para a verdade, memórias do ataque de 2022 e laços com Calvino e Eco.

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Salman Rushdie em Pordenonelegge: 'A dúvida guia para a verdade' — entre memórias, amizade literária e o ataque de 2022

Por Chiara Lombardi — Em Pordenone, palco da 27ª edição do festival Pordenonelegge, Salman Rushdie reafirmou uma tese que atravessa sua obra recente: a dúvida e a incerteza não são defeitos do pensamento, mas vias para a verdade. Convidado e agraciado com a nova honraria "Ambassador of Freedom" da Fondazione Pordenonelegge.it, o autor — nascido na Índia, naturalizado britânico e cidadão dos Estados Unidos desde 2016 — conversou sobre seus lançamentos pela Mondadori, memórias do atentado de 2022 e o papel do escritor em tempos de certezas absolutas.

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Com 79 anos, Rushdie apresentou L’undicesima ora ("A Décima Primeira Hora") como uma coletânea marcada pelo que ele chama de "infestação" pela incerteza: não por puro gesto estilístico, mas porque a incerteza é um dado existencial. "Eu me preocupo com quem tem certezas graníticas", disse. "A dúvida e a incerteza são uma estrada que conduz à verdade. E, além disso, muitos desses contos trazem uma veia cômica: a incerteza, por vezes, alimenta o cômico." Essa leitura faz do livro um espelho do nosso tempo, um roteiro que reframe a relação entre memória, ironia e perigo.

Ao traçar a genealogia literária de seus textos, Rushdie evocou a influência italiana: o encorajamento do mestre Italo Calvino e a amizade com Umberto Eco. "Há um certo 'calvinismo' nos meus contos", brincou, lembrando também da camaradagem que formava com Eco e Mario Vargas Llosa — uma espécie de "gang" intelectual que percorria conferências. "Agora sou o único remanescente desse trio; sinto falta do Umberto." Essa referência conecta a obra de Rushdie a uma tradição europeia de pensamento que vê a literatura como semiótica do mundo.

O autor não evitou o assunto que continua a marcar sua biografia: o ataque sofrido em 12 de agosto de 2022, durante um evento no Estado de Nova Iorque, quando foi esfaqueado por Hadi Matar, agora condenado a 25 anos por tentativa de homicídio. Em seu recente memoir Coltello. Meditazioni dopo un tentato assassinio ("Coltello. Meditações após uma tentativa de assassinato", Mondadori, 2024), Rushdie relata as lesões graves — perda do olho direito e limitações na mão direita — e o processo de reaprendizado físico e psíquico. "Reagi como esperava; inicialmente, houve as reações óbvias", afirmou, tornando pública a transformação que da dor extrai uma narrativa de resistência.

Além da esfera íntima e literária, o autor abordou questões geopolíticas e a liberdade de expressão. Em uma observação direta sobre lideranças contemporâneas, Rushdie advertiu sobre uma figura política dos Estados Unidos: "É uma ameaça, tudo aquilo que ele diz é o contrário da verdade" — frase que serve como alerta sobre o poder corrosivo das certezas impostas. Em sua fala, a literatura surge como um antídoto: ao cultivar o questionamento, o escritor coloca em cena o roteiro oculto da sociedade e devolve ao público ferramentas para ler o presente.

Na voz de Rushdie, o festival foi uma arena onde convicções foram postas em questão com elegância: seus livros — tanto os contos de L’undicesima ora quanto os ensaios de Linguaggi della verità — convidam o leitor a um exercício crítico. A distinção recebida em Pordenone consolida não só uma carreira literária, mas também o papel do autor como espelho do nosso tempo, cuja narrativa insiste em traduzir o trauma em reflexão e a incerteza em caminho para a verdade.

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