Venezia 83: o Lido entre rock, cinema e o pole que roubou a cena

No quarto dia de Venezia 83, os irmãos Gallagher roubam a cena, Nanni Moretti impressiona e um poste do Excelsior vira ícone fotográfico do Lido.

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Venezia 83: o Lido entre rock, cinema e o pole que roubou a cena

Cheguei ao Lido como quem entra em uma cena já construída: cada rosto, cada flash, cada silêncio compõe o storyboard de um festival que é, acima de tudo, um espelho do nosso tempo. Em Venezia 83, a quarta jornada provou que o tapete vermelho é tão palco de cinema quanto de performance social — e algumas entradas merecem uma legenda própria.

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O prêmio simbólico do dia, um Leoncino d'Oro não oficial mas merecido, vai para os irmãos Gallagher. Os icônicos Oasis desembarcaram no cais do Cassino com a mesma autoridade de quem inventou as regras do jogo: faltaram à conferência de imprensa, cederam apenas à liturgia fotográfica do photocall e desfilaram no red carpet como se cada passo fosse uma rima de uma antiga canção britânica. Resultado? Roubaram a cena até mesmo a Robert Pattinson. Quando duas reputações levam 16 anos para se reconciliar, o público prefere o silêncio e a reverência: discutir ali seria tropeçar numa história que ainda ecoa.

Do outro lado da cena, ao mesmo tempo distante e próximo, está o retorno do enigmático Nanni Moretti. Homem impossível da mostra: fotos medidas, entrevistas evitadas, mas diante da imprensa uma franqueza que corta o ar. A ele vai uma menção especial batizada de ‘Nonno Libero’ — porque, às vezes, uma palavra só não basta, e duas já soam demais. Moretti é a prova de que o cinema italiano cria seus próprios mitos dentro do microcosmo do Lido.

Mas se existe uma estrela do dia que não fala, não caminha e ainda assim monopoliza o enquadramento, essa é o palo do pontile do Hotel Excelsior. Ironia geográfica: aço e posicionamento transformaram um objeto em ícone fotográfico. Já apelidado de ‘Paolini della Darsena’, o poste parece brincar com a lente, materializando uma escultura involuntária entre celebridade e horizonte. Em tempos de imagem instantânea, até o cenário tem ambição de astro.

Entre personagens e objetos, surgem as pequenas tragédias cotidianas que humanizam o festival: o repórter Ivan Bacchi, vindo de ‘Chi l'ha visto’, improvisa guias de tapete vermelho, preferindo que os flashes privilegiem rostos com histórias reais — e não influencers de ocasião. E enquanto a umidade e o zumbido das moscas-laguna nos lembram de que o Lido é mais terreno do que etéreo, chegam também relatos de erros humanos: um garçom que, por engano, cobra mais de 100 euros; Flavia Vento que um dia acreditou num cortejo hollywoodiano de Tom Cruise — pequenas fábulas modernas que compõem o folclore de festival.

Venezia é assim: um roteiro oculto onde o sublime coexiste com o absurdo, e a memória coletiva se reconstrói entre um photocall e um brinde perdido no bar do Excelsior. Se a quarta jornada nos deu rock, cinema e um poste famoso, o que realmente interessa é o porquê dessas imagens permanecerem — não apenas como cliques, mas como ecos culturais que vão além da manchete e se instalam como releituras do nosso desejo de ver e ser visto.

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