A guerra comandada pela inteligência artificial: quem decide onde e como atacar?
A guerra comandada por inteligência artificial: quem decide ataques, responsabilidade e o aumento de vítimas civis numa era de sistemas autônomos.
RESUMO ✦
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A guerra comandada pela inteligência artificial: quem decide onde e como atacar?
Por Marco Severini — Em um mundo onde a tecnologia militar avança em ritmo exponencial, surge uma pergunta central para a ordem internacional: quem, de fato, assume a responsabilidade quando uma ação letal é executada por sistemas guiados por inteligência artificial?
No episódio mais recente de MappaMondi, os enviados da Rai, Veronica Fernandes e Giammarco Sicuro, debatem com o estrategista Alessandro Arduino as implicações éticas, jurídicas e estratégicas da crescente autonomia das plataformas bélicas. O fio condutor é simples e inquietante: armas cada vez mais refinadas estão gerando um aumento de vítimas civis, ao mesmo tempo em que os mecanismos tradicionais de responsabilização parecem fragilizados.
Devemos olhar para esse fenômeno como um movimento no tabuleiro — não um lance isolado, mas uma sequência que redesenha corredores de influência entre Estados, indústrias e atores não estatais. O surgimento de algoritmos que identificam alvos, priorizam objetivos e, em alguns casos, autorizam disparos, desloca o centro decisório do comandante humano para linhas de código. Isso não elimina a culpa política ou moral; apenas a complica, criando uma cadeia de responsabilidade difícil de decifrar: programadores, fabricantes, operadores, cadeias de comando, e o próprio Estado patrocinador, todos ocupam posições em um xadrez de implicações legais.
Arduino, cuja experiência em estratégia militar e gestão de crises lhe permite mapear essa arquitetura, aponta fragilidades dos alicerces legais internacionais. Sistemas autônomos ampliam a margem de erro técnico e interpretativo: reconhecimento equivocado, vieses de dados, falhas de integração sensor-arma. O resultado prático é o aumento das vítimas civis e a erosão das garantias tradicionais de distinção e proporcionalidade previstas pelo direito internacional humanitário.
Quem se beneficia desse avanço? Há um duplo ganho estratégico. Por um lado, países buscam superioridade operacional reduzindo riscos para suas próprias forças; por outro, indústrias de defesa e empresas de tecnologia encontram um mercado em expansão, com linhas de financiamento e parcerias público-privadas em crescimento. Além disso, a opacidade tecnológica fornece uma margem de negação plausível: ataques mediados por sistemas automatizados podem complicar a atribuição e diluir responsabilizações.
Do ponto de vista diplomático, tratamos de uma tectônica de poder: normas, alianças e tratados precisam ser revisitados para lidar com a nova realidade. A ausência de um marco internacional robusto sobre o uso letal de inteligência artificial em contextos de conflito cria alicerces frágeis na diplomacia. Sem regras claras, abre-se um espaço para treinamentos e adaptações táticas que aceleram a proliferação de capacidades autônomas.
As soluções não são triviais. Exigem um esforço coordenado: padronização técnica, transparência operacional, auditorias independentes, e mecanismos de responsabilização que contemplem não apenas o operador militar, mas também os desenvolvedores e contratantes. Isso implica, também, um redesenho de fronteiras invisíveis — entre tecnologia e política, entre indústria e Estado — para que a resposta internacional seja eficaz e juridicamente legítima.
O episódio de MappaMondi tem seus recursos informativos nas plataformas da Rai: episódios anteriores estão nas stories em destaque no Instagram; a partir de 2025, a série ampliou sua presença no YouTube e ganhou versão em podcast na Raiplaysound. A conversa comandada por Veronica Fernandes e Giammarco Sicuro com Alessandro Arduino é, mais do que reportage, um chamado à reflexão sobre como decidimos, enquanto comunidade internacional, os critérios que autorizam a morte quando a decisão passa por linhas de código.
Em suma: a guerra feita pela inteligência artificial não é um tema técnico isolado; é uma questão de governança global. Precisamos de regras claras para que o tabuleiro não seja reposicionado por quem, hoje, se beneficia do silêncio das lacunas normativas.

