Livro do conde Spencer sobre Diana: memórias, forçaturas e o peso silencioso dos Windsor
Análise de Marco Severini: livro do conde Spencer sobre Diana traz memórias, poucas novidades e alegadas forçaturas contra os Windsor.
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Livro do conde Spencer sobre Diana: memórias, forçaturas e o peso silencioso dos Windsor
Por Marco Severini — Em comentário à Espresso Italia, o historiador e jornalista Vittorio Sabadin posiciona-se com reserva diante do novo volume assinado pelo conde Charles Spencer, intitulado Canto del cigno. Diana, mia sorella, agora lançado em Itália pela editora Feltrinelli. Sabadin, autor de obras sobre a família real como Elisabetta, L'ultima regina e Diana. Vita e destino, descreve o livro como uma coleção de memórias recheada de lembranças, mas com poucas novidades factuais e algumas afirmações sem suporte documental.
Na sua leitura, há passagens que parecem mais movidas pelo ouvido e pela procura de cliques do que por investigação. Há, segundo ele, forçaturas evidentes — artifícios que servem tanto para publicidade quanto, possivelmente, para aumentar tiragens. Em termos geopolíticos e de simbolismo dinástico, Sabadin observa que a grande propriedade da família, a Casa de Althorp, na planície do Northamptonshire, não se encontra em plena vitalidade patrimonial: uma imagem que, metaforicamente, diz algo sobre os alicerces frágeis da dinastia.
Sobre a provável reação oficial, o comentarista aposta numa resposta contida de Carlos III e do círculo próximo: o princípio não escrito da monarquia britânica — "never complain, never explain" — deverá prevalecer. Já houve uma réplica de Buckingham Palace, lembrando que "a dor pela perda de uma irmã pode ofuscar o juízo, influenciar a memória e alterar recordações" — formulação que remete à mesma tautologia utilizada quando foram questionadas as memórias de Harry e Meghan na entrevista com Oprah Winfrey: "as memórias podem variar...".
Passados quase 30 anos desde o trágico acidente no túnel do Pont de l'Alma, ocorrido em 31 de agosto de 1997, a figura de Diana permanece mitificada. Sabadin traça um paralelo histórico-cultural com outros mitos de juventude interrompida, como James Dean e Marilyn Monroe: celebridades que, por morrer prematuramente, adquirem status simbólico eterno. No cânone público, Lady D será lembrada como uma mulher traída e como uma princesa cujo destino foi interrompido antes que pudesse consolidar seu papel no palco institucional.
No cerne do relato do conde Spencer, segundo Sabadin, está a tensão entre dor pessoal e percepção pública: o irmão assegura que Carlos não ficou eufórico com a morte de Diana; sentiu, ao contrário, sofrimento profundo e lágrimas. Contudo, como muitos dos Windsor, também experimentou — nas palavras do próprio Spencer — um sentimento de alívio, fruto do reconhecimento de que Diana se tornara imprevisível dentro do aparato palaciano. Sabadin acrescenta que, se a princesa houvesse aceitado escolta oficial, talvez o desfecho fosse distinto; a segurança oferecida pelos Al-Fayed, conclui, era inapropriada e despreparada.
Quanto às teorias de conspiração, o autor mostra ceticismo: os serviços secretos, por suas características operacionais, não teriam tido tempo nem as condições práticas para executar um plano tão meticuloso. O itinerário alterado de última hora — do Hotel Ritz para o apartamento nos Champs-Élysées — reforça a dinâmica imprevisível daquela noite, com consequências dramáticas.
Como analista, constato que este episódio editorial é mais um movimento no tabuleiro simbólico da memória pública: memórias particulares reconfiguram narrativas coletivas, e cada nova peça lançada sobre o tabuleiro altera, ainda que discretamente, a tectônica de poder e imagem da monarquia contemporânea.

