Papa em Paysandú: construir pontes com alicerces fortes para a fé e a convivência
Papa em Paysandú pede construção de pontes com alicerces fortes, homenageia o beato Jacinto Vera e reforça diálogo em um Uruguai plural.
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Papa em Paysandú: construir pontes com alicerces fortes para a fé e a convivência
Por Marco Severini — Em um gesto calculado como um movimento no tabuleiro da diplomacia, o Papa celebrou sua primeira missa na América do Sul em solo uruguaio, reforçando uma mensagem de união e responsabilidade estrutural: é preciso construir pontes com fundamentos sólidos para que não sucumbam às correntes mais impetuosas.
A celebração ocorreu em Paysandú, cidade marcada pela presença simbólica da Ponte Internacional General Artigas, que atravessa o rio Uruguai unindo duas nações. O Pontífice utilizou essa imagem cartográfica e arquitetônica para sublinhar benefícios claros de toda conexão: abertura, comunicação e intercâmbio. "Quanto é importante ser construtores de pontes", afirmou, lembrando que esse é um chamado vocacional que atinge a todos — sociedade civil, autoridades eclesiásticas e atores políticos.
O discurso assumiu um tom pedagógico e estratégico: não basta erguer vínculos; é indispensável que esses vínculos tenham alicerces sólidos. Como na parábola da casa edificada sobre a rocha, um ponte sem suporte adequado corre o risco de ruir frente ao vento e às águas. A metáfora, clara em sua arquitetura moral, funciona também como advertência sobre a fragilidade das alianças que não são sustentadas por princípios e compromisso.
O local escolhido para a cerimônia — o Parque París Londres — recebeu fiéis que, em muitos casos, seguiram a tradição rural da região e vieram a cavalo. Em sua homilia, o Papa fez referência à figura histórica do beato Jacinto Vera, o chamado "bispo gaúcho", cuja vida pastoral simboliza uma longa caminhada de entrega: percorreu o território uruguaio por três vezes, visitava doentes a cavalo e, durante a defesa de Paysandú, em 1864, refugiou-se na Ilha da Caridade para assistir feridos e deslocados de ambos os lados, permanecendo até o fim do cerco e suplicando pela paz.
O contexto uruguaiano não é neutro: trata-se do país menos católico do continente, onde apenas uma em cada três pessoas se declara abertamente católica. Esse dado confere à mensagem do Pontífice um caráter também estratégico, quase como um redesenho de fronteiras invisíveis — buscar pontos de contato em um terreno de diversidade religiosa e laicidade social exige diplomacia, paciência e firmeza doutrinal.
Como analista, observo que a imagem do construtor de pontes transcende a retórica pastoral e se insere numa tectônica de poder regional. Cada ato simbólico, cada referência histórica, é um lance que reconfigura percepções e expectativas: reforçar laços locais é, ao mesmo tempo, uma aposta na estabilidade social e um movimento cauteloso no tabuleiro amplo das influências latino-americanas.
Ao concluir a celebração, o apelo foi claro e contido: edificar vínculos duráveis, transmitir a alegria da fé, e sustentar essas construções em alicerces que resistam às tempestades — um programa de atuação que combina espiritualidade, prudência e visão estratégica. É um convite à responsabilidade coletiva, à edificação de estruturas humanas e morais que suportem as correntes imprevisíveis da história.

