Alemanha e Áustria travam proposta de Costa sobre o orçamento da UE: “Perda de contacto com a realidade”
Alemanha e Áustria rejeitam proposta de António Costa para novas receitas no QFP 2028-2034, pedindo cortes, simplificação e foco em tecnologia e IA.
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Alemanha e Áustria travam proposta de Costa sobre o orçamento da UE: “Perda de contacto com a realidade”
Bruxelas — Em mais um lance do tabuleiro político europeu, Berlim e Viena apresentaram hoje uma posição clara e coordenada contra as ideias do presidente do Conselho Europeu, António Costa, sobre o próximo Quadro Financeiro Plurianual (QFP) 2028-2034. No centro do embate estão propostas para novas fontes de receitas da UE e uma expansão orçamental defendida pelo antigo primeiro‑ministro português, medidas que receberam respostas duras do ministro alemão para a Europa, Gunther Krichbaum, e da ministra austríaca para a Europa, integração e família, Claudia Bauer.
Ao chegarem ao Conselho de Assuntos Gerais em Bruxelas, Krichbaum e Bauer reafirmaram o alinhamento de Alemanha e Áustria com os Estados do chamado grupo dos frugais — Dinamarca, Finlândia, Países Baixos e Suécia — favoráveis a disciplina orçamental, cortes e uma menor dependência do endividamento comum. Krichbaum foi frontal: o seu governo solicita “uma redução da proposta da Comissão de várias centenas de bilhões de euros”.
Sobre as declarações de António Costa, que defendeu a criação de impostos europeus que hoje não são cobrados pelos Estados, Krichbaum comentou que tais sugestões são “não exatamente úteis” e questionou se o presidente do Conselho “não terá perdido o contacto com a realidade”. A mensagem de Berlim é pragmática: os orçamentos nacionais estão sob enorme pressão e a prioridade deve ser realismo, com investimentos seletivos e modernização dos instrumentos europeus.
Na leitura alemã, a reforma do QFP deve concentrar-se em identificar setores estratégicos para investimento — em particular novas tecnologias e inteligência artificial — para evitar que a Europa fique para trás face a potências como a China e os Estados Unidos. O objetivo é enviar “um sinal claro em direção à modernização”, sem, contudo, comprometer a sustentabilidade fiscal dos Estados‑membros.
Do lado austríaco, a ministra Claudia Bauer destacou que a proliferação legislativa anunciada pela presidente da Comissão, Ursula von der Leyen — mais de vinte novas iniciativas no discurso sobre o Estado da União — exige cautela. “Combater a crescente burocracia com cada vez mais leis é como apagar incêndios com papel”, disse Bauer, defendendo que a prioridade deveria ser a simplificação administrativa e a aplicação prática das normas já existentes.
Vienna, que promoveu um documento informal subscrito também pela Itália, propõe um ano dedicado à redução da burocracia: foco na implementação, eliminação de normas redundantes e inversão da ordem das prioridades legislativas. Para Bauer, essa disciplina de processo deve ser aplicada também ao desenho do futuro QFP 2028-2034.
Este confronto revela mais do que uma divergência técnica: assinala um redesenho de fronteiras invisíveis na arquitetura política europeia, onde os alicerces da diplomacia financeira são postos à prova. Enquanto Costa pede instrumentos e receitas novas para reforçar a ação comunitária, a linha dura de Berlim e Viena opera como um movimento defensivo no tabuleiro — proteger a solvabilidade nacional e forçar uma seleção estratégica de prioridades.
Nas próximas semanas, esse choque de visões terá impactos práticos nas negociações do QFP, testando a capacidade de conciliação entre ambição europeia e restrições internas dos Estados‑membros — uma tensão antiga, agora exposta numa nova tectônica de poder que definirá prioridades para a próxima década.

