Por que nove países perseguem a União Europeia — e por que a Islândia disse não

Islândia rejeita reabrir negociações com a UE; nove candidatos avançam. Entenda as razões económicas, de soberania e geopolítica.

Por que nove países perseguem a União Europeia — e por que a Islândia disse não

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Por que nove países perseguem a União Europeia — e por que a Islândia disse não

Em um movimento que revela duas faces do mesmo tabuleiro geopolítico, nove Estados continuam a buscar a adesão à União Europeia, enquanto a Islândia optou por recusar a abertura de negociações. No referendo de 29 de agosto de 2026, 52,8% dos eleitores islandeses votaram contra a reabertura das negociações de adesão, contra 47,2% a favor. A decisão mantém o país no Espaço Económico Europeu (SEE) e na área Schengen, com acesso inalterado ao mercado único — mas sem o passo político adicional de ceder parte da sua soberania a Bruxelas.

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Enquanto isso, candidaturas como a da Ucrânia e da Moldávia avançaram na revisão das suas legislações para alinhar-se ao acervo comunitário; o Montenegro já fechou 18 dos 33 capítulos negociais e persegue uma meta ambiciosa autodenominada “28 by 28” — tornar‑se o 28º membro até 2028 — e a Albânia projeta encerrar negociações até 2027. Estes países veem na adesão não apenas uma integração económica, mas um ancoradouro geopolítico e um mecanismo de reformas que torna politicamente custoso qualquer retrocesso.

Como notou Tinatin Akhvlediani, responsável pelo programa de alargamento no Centre for European Policy Studies (CEPS), os ganhos da adesão assumem contornos distintos conforme o ponto de partida dos Estados. Para países menos prósperos ou mais expostos à vizinhança russa, a adesão à UE é um instrumento de segurança, financiamento e transformação institucional. No caso islandês, a economia já encontra estabilidade por meio do SEE e a defesa é assegurada pela NATO. O que restava na mesa era sobretudo a dimensão política: um assento nas instituições de Bruxelas em troca de uma maior partilha de soberania.

A campanha pelo “sim” dispunha de argumentos factuais: uma diferença sensível nas taxas de juro — com a banca central islandesa a fixar uma taxa em torno de 8% face a 2,25% do BCE — e a escalada de tensões no Ártico, reacendidas quando o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, reavivou a ideia de comprar a Groenlândia. Contudo, segundo Akhvlediani e outros analistas, estes vetores económicos e de segurança não foram suficientes para deslocar o eleitorado numa questão essencialmente política.

Entre as razões que pesaram no eleitorado islandês aparecem, nas análises, preocupações relacionadas com a gestão dos recursos marinhos, a autonomia regulatória e o receio de perda de influência sobre políticas internas cruciais — questões que, em termos práticos, se traduzem numa resistência a sacrificar alicerces de soberania por benefícios cujos retornos políticos lhes parecem difusos. Em linguagem de estratégia, a Islândia preferiu manter as peças numa configuração em que controla as suas linhas de força, em vez de aceitar um mate posicional que lhe daria voz em Bruxelas, porém exigiria concessões permanentes.

O episódio islandês funciona, assim, como um teste para a capacidade da UE de vender uma narrativa de integração que vá além dos ganhos económicos instantâneos. Para Estados já prósperos e largamente integrados ao mercado único, a União tem de fortalecer os argumentos políticos: garantir influência institucional tangível, proteções geoestratégicas claras e uma visão convincente sobre como a partilha de soberania se converte em vantagens concretas e duradouras.

Do ponto de vista da tectônica de poder europeu, o resultado abre uma janela de reflexão: a expansão continua a ser vista por muitos candidatos como um redesenho de fronteiras invisíveis, um movemento decisivo no tabuleiro para consolidar ancoragens estratégicas. Mas para países com alicerces sólidos e alto grau de integração económica, a adesão exige mais do que instrumentos padrão — exige uma proposta que convença os eleitores de que ceder parte da sua autonomia é, afinal, a jogada certa para preservar e ampliar a sua influência.

Marco Severini — Espresso Italia. A análise procura decifrar, com calma diplomática e visão de longo prazo, as consequências de uma escolha que mistura soberania, segurança e cálculo estratégico.

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