Sahara Ocidental: Bourita aponta 'virada histórica' e exige solução definitiva após Resolução 2797
Bourita anuncia 'virada histórica' no caso do Sahara após a Resolução 2797; Marrocos busca solução definitiva e influência no Conselho de Segurança.
RESUMO ✦
Sem tempo? A Lili IA resume para você
Sahara Ocidental: Bourita aponta 'virada histórica' e exige solução definitiva após Resolução 2797
Por Marco Severini — Na 81ª Assembleia Geral das Nações Unidas, em Nova York, o ministro dos Negócios Estrangeiros do Marrocos, Nasser Bourita, declarou que a questão do Sahara entrou numa nova fase estratégica após a adoção, em outubro de 2025, da Resolução 2797 do Conselho de Segurança da ONU. A intervenção, proferida em nome do Marrocos, sinaliza um movimento decisivo no tabuleiro diplomático que envolve interesses regionais e internacionais.
Na minha leitura, como analista de geopolítica com foco na estabilidade das relações de poder, trata-se menos de um instante de retórica do que de um reposicionamento calculado: a Resolução 2797 oferece um marco jurídico-político que o Rabat pretende converter em progresso concreto — uma «solução definitiva» que, nas palavras de Bourita, deve encerrar um litígio que há décadas altera a tectônica de poder no Magrebe.
O anúncio ocorre num momento em que o Marrocos busca ampliar sua influência multilaterial — incluindo uma candidatura a assento não permanente no Conselho de Segurança — e transformar ganhos diplomáticos em alicerces sustentáveis para estabilidade regional. A leitura estratégica é clara: ao reivindicar que há agora condições para uma resolução final, Rabat procura consolidar ganhos e moldar os termos de uma negociação em que pretende ser protagonista.
Há várias camadas a considerar. Primeiro, a Resolução 2797, aprovada em outubro de 2025, funcionou como um novo arcabouço para conversações e observação internacional; segundo, a declaração no plenário da Assembleia Geral reforça a narrativa marroquina de que o processo entrou numa fase de execução e não apenas de diagnóstico. Em termos de cartografia política, trata-se de um redesenho de fronteiras invisíveis — não físicas, mas de influência e legitimidade.
No tabuleiro diplomático, cada movimento solicita respostas. A reivindicação de uma «solução definitiva» mobiliza atores regionais, potências com interesses mediterrâneos e instâncias multilaterais que veem no conflito uma fonte persistente de instabilidade. A eficácia da estratégia marroquina dependerá, contudo, da habilidade de transformar o capital diplomático em soluções concretas sobre o terreno — acordos de administração, garantias de segurança e mecanismos verificáveis de implementação.
Como sempre ocorre em disputas longas, as opções práticas são limitadas por realidades político-diplomáticas: necessidade de acompanhamento internacional, garantias a populações afetadas e, inevitavelmente, concessões difíceis. Se a Resolução 2797 abriu uma brecha, a travessia exige paciência estratégica, competência institucional e uma arquitetura de garantias que convença adversários e aliados.
Em suma, a declaração de Bourita constitui um marco retórico e político cujo valor real será medido nas próximas etapas: negociações bilaterais e multilaterais, propostas de implementação e, sobretudo, na capacidade de transformar intenções em estabilidade duradoura. No xadrez da diplomacia, o movimento foi preciso; resta ver se o próximo será de execução ou apenas simbólico.

