UE amplia sanções por 36 meses e retira Usmanov e Fridman após negociações tensas
UE renova sanções por 36 meses, mas remove Usmanov e Fridman após negociações tensas com França e Eslováquia. Kiev reage com críticas.
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UE amplia sanções por 36 meses e retira Usmanov e Fridman após negociações tensas
Por Marco Severini — Em um movimento que revela a complexa tectônica de poder dentro do Conselho Europeu, a União Europeia decidiu prolongar por 36 meses o seu regime de sanções individuais contra a Rússia, mas autorizou a remoção de dois oligarcas de grande visibilidade: Alisher Usmanov e Mikhail Fridman. A decisão, selada após semanas de negociações intensas em Bruxelas, expõe os alicerces frágeis da diplomacia que busca conjugar coesão e concessões tácticas.
Segundo diplomatas presentes nas discussões, a exclusão de Usmanov da lista de sanções foi condicionada por Paris, que vinculou o pedido a um gesto concreto de Baku — o libertação de prisioneiros por parte do Azerbaijão. Já a saída de Fridman foi resultado de um veto imposto pela Eslováquia sobre o prolongamento da sua inclusão. O Luxemburgo, por sua vez, sustentou que a remoção de Usmanov deveria ser acompanhada pela de Fridman; há, nesse pano de fundo, um litígio financeiro em curso: Fridman apresentou uma ação por danos no valor de 16 bilhões de dólares contra o Luxemburgo devido ao congelamento de ativos.
Os embaixadores europeus conseguiram fechar o compromisso na terça-feira, após duas semanas de negociações que levaram o regime sancionatório ao limite do colapso. A Letônia chegou a obstruir o processo por entender que não era o momento para aliviar a pressão sobre Moscou, mas acabou cedendo e votando uma "abstenção construtiva" que permitiu alcançar a unanimidade necessária para aprovar a renovação.
Como contrapartida ao impacto político da exclusão de dois empresários de proa, o bloco optou por uma medida de arquitetura institucional: estender o mandato das sanções por um período sem precedentes de 36 meses — um movimento destinado a reduzir a frequência de votações semestrais que repetidamente serviam de ocasião para trocas e pressões bilaterais.
A lista de medidas punitivas da UE contém atualmente mais de 2.600 indivíduos, organizações e entidades acusadas de apoiar a ofensiva russa na Ucrânia, entre as quais figura o presidente Vladimir Putin. A extensão para três anos visa proteger esse arsenal sancionatório de vetos pontuais e proporcionar maior previsibilidade estratégica ao regime comum.
A decisão, contudo, não foi bem recebida em Kiev. O presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, fez um apelo público para que o bloco mantivesse Usmanov e Fridman na lista negra, agradecendo explicitamente à Letônia pela resistência inicial. "O mundo não precisa de uma remoção política, mas de uma renovação tempestiva e incondicional das sanções individuais, até que Moscou inicie negociações sérias de paz e tome medidas concretas para pôr fim à sua guerra contra a Ucrânia", afirmou Zelensky, reforçando que a unidade europeia é a via mais curta para a paz.
No salão das negociações, entretanto, percebeu-se que a França havia apostado grande capital político na demanda por Usmanov e se mostrava relutante em recuar, independentemente das críticas. "Ninguém está satisfeito com isso", resumiu um diplomata, mas havia consenso de que preservar o núcleo do regime de sanções compensaria a concessão feita em dois casos de alto perfil.
Em um plano mais amplo, este episódio representa um movimento decisivo no tabuleiro europeu: a UE demonstrou disposição para sacrificar peças individuais para salvaguardar a integridade institucional do seu mecanismo sancionatório. Resta ver se esse arranjo de curto prazo fortalecerá a coesão estratégica do bloco ou abrirá precedentes que outros atores poderão explorar no futuro.
Enquanto Bruxelas respira aliviada por ter evitado uma ruptura imediata, a tensão entre unidade e interesses nacionais permanece — um lembrete de que, na diplomacia contemporânea, cada concessão é também um cálculo tático na disputa por influência.

