Alerta no Glaciar Perito Moreno: recuo de 910 metros em apenas 100 dias na Patagônia
Alerta: o glaciar Perito Moreno, na Argentina, recuou 910 m em 100 dias; especialistas apontam perda da ancoragem subglacial e aumento do calving.
RESUMO ✦
Sem tempo? A Lili IA resume para você
Alerta no Glaciar Perito Moreno: recuo de 910 metros em apenas 100 dias na Patagônia
Sou Alessandro Vittorio Romano, e observo, como quem caminha pela respiração lenta da paisagem, que o glaciar Perito Moreno, na Argentina, deu um passo brusco contra o seu próprio tempo: entre fevereiro e junho, em apenas 100 dias, registrou um recuo de 910 metros na sua linha de frente — o ponto onde historicamente nasce a espetacular barragem de gelo que o define.
O dado vem de um levantamento do centro de interpretação Glaciarium, em conjunto com especialistas do Parque Nacional Los Glaciares. É um número que estremece porque este era um dos poucos glaciares no mundo ainda descritos como “estáveis” ou “em equilíbrio”, capazes de recuperar no inverno o que perdiam em estações mais quentes.
Para entender o que mudou, o estudo aponta um fator central: o assottigliamento e l'arretramento della dorsale subglaciale — em nossa língua, o afinamento e a retirada da crista subglacial que funcionava como uma espécie de raiz ou ancoradouro, estabilizando a frente do gelo. Quando essa ancoragem se perde, a superfície de contato entre o gelo e a água aumenta, e com isso a fusão submarina e o calving — o desprendimento de grandes blocos — passam a dominar a cena. É um mecanismo que, uma vez acionado, tende a acelerar e pode tornar o processo irreversível.
O Perito Moreno está situado no Parque Nacional Los Glaciares, patrimônio Unesco desde 1981. É singular: o único glaciar horizontal do planeta, com cerca de 30 quilômetros de extensão e uma superfície aproximada de 250 km². Sua fisionomia fazia parte do imaginário da Patagônia, e agora vemos essa paisagem mudar na velocidade de uma temporada curta — como uma colheita de hábitos desviada pelo calor.
Essa notícia não é apenas estatística. É a percepção, em termos climáticos, de que a linguagem do gelo está mudando: rompem-se as linhas que conhecíamos, e com isso se alteram ecossistemas, rotas de turismo e a memória coletiva de um lugar. Como um jardineiro que percebe a secura do solo antes das folhas caírem, devemos ler esses sinais e ajustar práticas, políticas e expectativas.
Os cientistas alertam: o aumento do contato entre gelo e água e o afinamento das estruturas internas do glaciar predispõem a mais eventos de calving e a uma recessão que pode não ter retorno fácil. É um chamado para ampliar a observação e as ações locais e globais sobre o aquecimento e seus efeitos.
Enquanto observador e tradutor das estações, sinto que o recuo de quase um quilômetro do Perito Moreno em 100 dias é uma narrativa que nos convida a cuidar das raízes do nosso bem-estar: preservar a água, o clima e as paisagens que nos alimentam. A Patagônia, em seu silêncio glaciar, está escrevendo um alerta que todos devemos escutar.

