Verão negro para os glaciares do Trentino: La Mare e Careser à beira da extinção, Mandrone perde 265 m
Verão crítico para os glaciares do Trentino: Mandrone recuou 265 m; Careser e La Mare registram perdas históricas de massa.
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Verão negro para os glaciares do Trentino: La Mare e Careser à beira da extinção, Mandrone perde 265 m
Por Alessandro Vittorio Romano — As chuvas tímidas do inverno e o calor implacável do verão traduziram-se numa queda abrupta da massa dos glaciares trentinos. As primeiras estimativas do balanço de massa anual, realizadas com base nos levantamentos de verão, confirmam uma temporada de sofrimento intenso para os glaciares do Adamello-Mandrone, do Careser e de La Mare.
Os dados apontam que o Mandrone registrou uma perda média de 2,90 metros de equivalente em água, enquanto o Careser alcançou uma estimativa preliminar de 4 metros, valor que se aproxima do mínimo histórico detectado em 2022. As medições foram executadas pelo Ufficio previsioni e pianificazione da Provincia autonoma di Trento, pela Commissione glaciologica da Società degli Alpinisti Tridentini e pelo MUSE, com a colaboração do Servizio glaciologico lombardo e da Universidade de Pádua (Università degli studi di Padova).
No Adamello, a escassez de precipitação no último inverno resultou em acúmulos de neve abaixo da média. Ao mesmo tempo, o verão trouxe temperaturas elevadas, com o zero térmico frequentemente acima de 4.800 metros, acelerando a fusão do manto nevado. A língua glaciar do Mandrone recuou cerca de 265 metros nos últimos três anos e mais de 500 metros na última década — um recuo que lembra, na paisagem, as linhas de uma colheita que não foi feita.
Durante o verão que agora termina, toda a superfície do glaciar apresentou perdas, inclusive as áreas mais altas que até então funcionavam como reservatório de neve. As análises indicam que a maior redução de espessura concentrou-se próxima à frente glacial, com uma perda estimada em 4,77 metros de equivalente em água. Nas porções mais elevadas, a ablação foi mais contida: perto do Dosson di Genova, a perda estimada foi de 1,8 metros.
O Careser também sofreu com a falta de neve durante o inverno. Em maio de 2026, o acúmulo nivoso estava 35% abaixo da média histórica — uma anomalia séria, embora menor que a observada em 2022, quando chegou a -50%. A temporada de fusão começou cedo, já em maio, e foi marcada por ondas de calor persistentes que prolongaram a ablação. Em início de julho, a superfície glaciar já estava totalmente desprovida de neve residual.
Para o Careser, a estimativa preliminar do balanço de massa é de -4 metros de equivalente em água — um número extremamente negativo e comparável ao recorde mínimo de 2022, quando as séries de medições, iniciadas em 1967, registraram níveis alarmantes. No vizinho glaciar de La Mare, o acúmulo invernal foi cerca de 22% abaixo da média histórica, agravando ainda mais a vulnerabilidade desse corpo de gelo.
As medições e observações deste verão confirmam que estamos diante de um verão negro para os glaciares do Trentino: sinais de aclimatação forçada do território e das comunidades que buscam nas montanhas o frescor e a continuidade das nascentes. Como observador dos ritmos da natureza, vejo nesses recuos glaciais a leitura do tempo interno do corpo do planeta — uma respiração que se torna mais curta a cada ano.
É preciso acompanhar com cuidado as próximas campanhas de medição e reforçar a consciência sobre as práticas que influenciam o clima local. Enquanto isso, as linhas deixadas pelo gelo que recua permanecem como mapas silenciosos de um verão que levou mais do que calor: levou reservas essenciais de água e o equilíbrio de paisagens ancestrais.

