Bassetti: “Ser médico hoje também é assumir a divulgação científica”
Bassetti afirma que ser médico hoje implica também divulgar ciência; critica TV e jornais e pede mais profissionais ativos na comunicação em saúde.
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Bassetti: “Ser médico hoje também é assumir a divulgação científica”
Napoles — Em participação remota na segunda edição do Health Journalism Forum, realizada no Hospital Cardarelli de Nápoles, o infectologista Matteo Bassetti reafirmou que o exercício da medicina contemporânea extrapola o consultório e exige compromisso com a divulgação científica. Diretor da Clínica de Doenças Infecciosas do Policlinico San Martino, em Gênova, Bassetti fez um raiox crítico sobre a qualidade da informação veiculada por grandes meios e descreveu o ecossistema digital como um terreno onde a autoridade precisa ser reafirmada.
“A confiança deriva de muitas coisas, não de uma só: não é apenas o jaleco, nem só o currículo, nem só publicações ou a exposição televisiva. É a soma de fatores que faz com que hoje as pessoas procurem, em seus dispositivos e nos momentos de maior relaxamento, informações sobre saúde provenientes de uma fonte autoral e confiável”, disse Bassetti durante o seu discurso.
O infectologista destacou que, no ambiente on-line, há perfis com grande número de visualizações e seguidores que carecem de fundamento técnico. “O mundo da rede está cheio de sujeitos que têm muitos números, mas não o background para comunicar sobre saúde. Por isso, quem tem formação e responsabilidade tem o dever de estar presente”, afirmou.
Bassetti afirmou que o público encontra em seus canais — e nos de outros profissionais — uma autenticidade que muitas mídias tradicionais perderam. “Televisão e jornais perderam muito terreno. Tirando um par de jornais nacionais que ainda mantêm uma página dedicada à saúde, a maioria passou a considerar a divulgação científica como tempo perdido”, analisou. O médico criticou o direcionamento da programação televisiva para índices de audiência, citando exemplos de conteúdo sensacionalista que permanecem em pauta por longos períodos, enquanto temas de saúde perdem espaço.
O recado de Bassetti foi também para os próprios colegas: “Espero que parem de fazer os ‘chiques’, aqueles que me rotulam de ‘influencer’. Não é esse o ponto. Quem não divulga está, em minha opinião, cumprindo de forma incompleta a sua missão profissional”. Ele sublinhou que sua rotina inclui atendimento diário no hospital — “você me encontra todas as manhãs no hospital” — e que a atividade de comunicação é complemento legítimo do papel de professor universitário.
Na avaliação do infectologista, médicos deveriam dedicar parte do tempo a levar mensagens simples e corretas à população, ao invés de se recusar ao espaço público. “Gastem parte do tempo divulgando em vez de jogar golfe ou passear de barco. Promover mudanças de estilo de vida — fazer alguém parar de fumar, aconselhar sobre consumo responsável de álcool — é tão relevante quanto prescrever um antibiótico ou um anti-hipertensor”, concluiu.
O posicionamento de Bassetti oferece um retrato pragmático do que ele define como a nova frente da prática médica: união entre assistência clínica, ensino e comunicação pública rigorosa. Em termos jornalísticos, a fala reforça a necessidade de jornalismo e conteúdo especializado que atuem como mitigadores da desinformação em saúde, resultado de apuração e cruzamento de fontes.

