Agro e dolce: a vida de Dacia Maraini em palavras e imagens
Agro e dolce: o álbum íntimo e fotográfico de Dacia Maraini, publicado pela Rizzoli aos 90 anos da escritora.
RESUMO ✦
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Agro e dolce: a vida de Dacia Maraini em palavras e imagens
Em um lançamento que é quase um espelho poético da história cultural italiana, chega às livrarias Agro e dolce. Una vita in parole e immagini, volume publicado pela Rizzoli em homenagem aos 90 anos de Dacia Maraini. Curado nos textos por Paolo Di Paolo e nas fotografias por Serafino Amato, o livro compõe um álbum que não é apenas biografia: é um roteiro íntimo e público, onde o olhar fotográfico e a escrita se entrelaçam para traçar o perfil de uma escritora cuja obra virou referência.
Nas primeiras páginas, Di Paolo evoca a disciplina que funda a prática criativa de Dacia Maraini: dias ordenados em torno da mesa de trabalho, a recepção quase doméstica que a escritora dá aos personagens — “os hospeda como misteriosos avventori”, diria a prosa italiana —, e o ritual de transformar encontros imaginários em narrativas. Essa descrição funciona como um pequeno manifesto sobre o ofício, e revela o que sempre esteve por trás dos títulos que marcaram gerações.
O volume revisita clássicos que permaneceram no imaginário cultural, como La lunga vita di Marianna Ucrìa (Campiello 1990), e aponta também para obras recentes e engajadas, entre elas Scritture segrete. Le donne che hanno cambiato il mondo con la parola e Caro Pier Paolo, em que Maraini recorda a relação intensa com Pier Paolo Pasolini. As imagens do arquivo privado, muitas delas produzidas pela própria autora, adicionam camadas: revelam Maraini como fotógrafa sensível, capaz de transformar o mundo em composição — o mundo que ela diz não compreender totalmente, mas que observa com uma mistura de ternura e inquietação.
Página após página, emerge a figura da menina de raízes sicilianas, “nascida viajando”, filha do antropólogo Fosco Maraini e da pintora Topazia Alliata. São lembranças que atravessam o tempo: o internamento e a fome nos campos de prisioneiros no Japão, o amor pelos livros como porto seguro, e os trajetos pela África e pelo Oriente que esculpiram sua visão de mundo. Entre as estradas e aeroportos da trajetória, convivências intelectuais e afetivas com nomes como Alberto Moravia, Pier Paolo Pasolini e Maria Callas aparecem como episódios de um roteiro coletivo — fragmentos que ajudam a decifrar o papel de Maraini como testemunha e agente cultural.
O livro não evita a política: as páginas registram as batalhas da escritora pelos direitos das mulheres, uma linha constante que atravessa seu trabalho e sua vida pública. Assim, Agro e dolce funciona também como um inventário afetivo e político, um reframe da realidade que nos convida a olhar para as conexões entre memória pessoal e mudança social.
Para o leitor contemporâneo, este volume é mais do que homenagem: é um convite à leitura como gesto ético. Ao folhear as fotos e as entranhas da escrita de Maraini, percebemos um eco cultural que atravessa décadas — e que nos lembra como a literatura pode ser um espelho do nosso tempo, refletindo dores e delícias, espinhos e carícias. É a obra de uma vida posta em diálogo com a imagem, um testemunho que continua a falar com a sociedade e a renovar nossa compreensão do roteiro oculto da cultura.
Chiara Lombardi, Espresso Italia

