Antonietta De Lillo alerta: “A indústria não pode derrotar a cultura no cinema”

Antonietta De Lillo defende que a indústria não deve se sobrepor à cultura no cinema; entrevista sobre rótulos, memória e o futuro da produção cinematográfica.

Antonietta De Lillo alerta: “A indústria não pode derrotar a cultura no cinema”

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Antonietta De Lillo alerta: “A indústria não pode derrotar a cultura no cinema”

Em entrevista ao Il Foglio, a cineasta Antonietta De Lillo traçou um retrato preciso e cortante do estado atual do cinema italiano e europeu: para ela, a lógica de mercado não pode — e não deve — se sobrepor à cultura. "Se você faz algo que não é reconduzível ao mainstream nem ao autoral, torna-se incollocabile. A mim pareceram estreitas ambas as etiquetas", disse a diretora, apontando uma tensão que é, ao mesmo tempo, estética e estrutural.

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O comentário de De Lillo funciona como um espelho do nosso tempo: vivemos numa era em que o roteiro oculto da sociedade passa também pela indústria do entretenimento, onde algoritmos, janelas de distribuição e métricas de audiência reordenam preferências e financiam o que é previsível. Mas, como lembra a cineasta, essa lógica industrial não se confunde com o motor essencial da arte cinematográfica — que é, antes de tudo, uma força de memória, identidade e investigação social.

Ao longo da conversa, emergiu uma análise sutil sobre as categorias que definem o mercado cultural: o rótulo de "autoral" por vezes consagra um cânone restrito; o adjetivo "mainstream" reduz a obra a uma fórmula. De Lillo defende que o perigo aparece quando a produção passa a ser pensada apenas em termos de comercialização. "A indústria não pode vencer sobre a cultura", sintetiza, numa frase que tem o tom de um manifesto e a cadência de quem observa o cinema como cena de transformação cultural.

Não se tratou de nostalgia vazia. A diretora propõe um reframe: conservar espaços de experimentação e apoiar narrativas que interrogam o presente. Em sua ótica, o desafio é político e estético — envolve políticas públicas, sistemas de financiamento e a coragem de exibir obras que não se encaixam em etiquetas fáceis. Ela aponta para a urgência de manter festivais, salas e dispositivos de curadoria que respeitem a complexidade da produção contemporânea.

Como observadora do Zeitgeist, De Lillo coloca o cinema num lugar de interlocução com outras esferas da cultura: memória coletiva, memória individual, geopolítica e a transformação das imagens na era digital. É um convite a ver o filme não apenas como produto, mas como um eco cultural que refrata emoções e ideias e que muitas vezes antecipa ou interpreta o espírito de uma época.

A entrevista reforça a ideia de que rotular uma obra apenas para encaixá-la num mercado é empobrecer seu potencial. Ao final, a diretora deixa uma provocação elegante, à maneira de quem discute cinema num café em Milão: preservar a cultura cinematográfica é um gesto coletivo, que exige instituições robustas e uma plateia disposta a arriscar a experiência. Se a indústria impor suas regras sem freios, perdemos não só filmes, mas pistas sobre quem somos.

Para leitores e profissionais do setor, a fala de Antonietta De Lillo é um chamado à vigilância crítica: cuidar do cinema como um bem comum, um território onde a indústria dialoga — e jamais domina — a cultura.

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