Leila Slimani no Pordenonelegge: “A imigração não pode ser caricaturada; a identidade não está no passaporte”
Leila Slimani no Pordenonelegge: sobre imigração, língua e identidade — “a identidade não está no passaporte”.
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Leila Slimani no Pordenonelegge: “A imigração não pode ser caricaturada; a identidade não está no passaporte”
Por Chiara Lombardi — Em um painel pungente no festival Pordenonelegge, a escritora franco-marroquina Leila Slimani apresentou seu mais recente romance, Porterò il fuoco con me, terceiro e último capítulo da trilogia Il paese degli altri, publicado pela La nave di Teseo. Entre as páginas e as perguntas do público, emergiu uma reflexão insistente: a imigração é um espelho complexo do nosso tempo e recusar narrativas simplistas é um ato político e estético.
Slimani advertiu que é preciso evitar uma visão caricatural da imigração. Nas suas palavras, “Bisogna evitare una visione caricaturale dell'immigrazione. L'identità e la dignità non sono sul passaporto”. Esse aforismo funciona como eixo do encontro: longe de ser um tema só de políticas migratórias, a mobilidade humana exige que reconheçamos a multiplicidade das histórias, motivações e desejos que empurram uma pessoa a partir.
Ao narrar migrações, explicou a autora, é preciso recusar a dicotomia confortável — um “mundo livre” contra outro “sem liberdade”. “Non stiamo parlando di due mondi: un mondo dove c'è la libertà e un mondo dove la libertà non esiste”, disse. Pessoas que emigram sabem que a Europa não é um Eldorado e que os obstáculos à documentação, à integração e ao trabalho são reais. Mas, por trás de cada partida, há motivações plurais: jovens que buscam liberdade sexual, casais que desejam viver com menos amarras, ou indivíduos em busca de outras condições materiais e sociais.
Para Slimani, a noção de liberdade nunca é absoluta; ela é condicionada por recursos econômicos, redes sociais e contextos culturais. “Uma pessoa pode ser livre no Marrocos e talvez não ser livre na Europa e vice-versa”, sintetizou, lembrando que discursos simplificados alimentam estereótipos e podem se transformar em ódio ou racismo.
Outro fio condutor do encontro foi a relação íntima da autora com a língua árabe. Nascida no Marrocos e educada num contexto francófono, Slimani confessou ter vivido por muito tempo um sentimento de culpa por não dominar o árabe falado. “Não me sentia uma verdadeira marroquina”, contou, e atribuiu essa fratura ao legado das escolas coloniais. A própria trajetória familiar ilustra a tensão: seu pai, natural de Fes e futuro ministro das Finanças, chegou a anotar foneticamente um discurso em árabe para falar no Parlamento porque não sabia ler a própria língua.
Slimani remeteu ainda aos anos 1980, quando frequentou escolas francesas onde francês e inglês eram línguas de prestígio. Esse hiato entre língua, pertencimento e memória, segundo ela, foi agravado por dinâmicas posteriores — entre elas o impacto dos atentados de 11 de setembro — que colocaram a língua árabe entre o peso da colonização e as leituras ideológicas do integralismo.
Escrever, concluiu a autora, foi uma forma de mapear essas fraturas: a trilogia funciona como um reframe da história familiar e coletiva, uma mise-en-scène onde as identidades se movem, se negociam e recusam rótulos fáceis. Em sua fala, a literatura aparece como aquele espelho crítico que nos permite ver o roteiro oculto da sociedade e observar como memórias, línguas e desejos compõem narrativas de migração.
Ao sair do auditório, fica a sensação de que a obra de Slimani pede ao leitor não um veredito sumário, mas uma disposição para entender as nuances: a imigração é, antes de tudo, um mapa de escolhas humanas e ambivalências históricas — e a identidade, lembremos, não se resume a um carimbo no passaporte.

