Herança Digital e IA: quem realmente recebe nossos dados, contas e a “alma” digital?
Como a herança digital e a IA redefinem quem herda contas, dados e avatares criados a partir da vida online. Debate interdisciplinar em Roma.
RESUMO ✦
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Herança Digital e IA: quem realmente recebe nossos dados, contas e a “alma” digital?
O encontro entre a morte e a tecnologia levanta questões que tocam os alicerces da vida social contemporânea. Quem pode acessar nossos e-mails, nuvens e perfis quando partimos? O que acontece com fotos, documentos e playlists que hoje substituem livros e discos nas memórias familiares? E, mais perturbadoramente do ponto de vista jurídico e ético: o que ocorre se, a partir dos dados acumulados ao longo de uma vida, uma IA cria um avatar capaz de falar em nome de quem se foi?
Esses temas estão no centro do recém-inaugurado Jean Monnet Centre of Excellence on EU Digital Legacy, da Università Pegaso, cujas atividades foram apresentadas em Roma, na sede de Piazza Santi Apostoli 49. O projeto propõe uma abordagem interdisciplinar para um território quase inexplorado — uma ponte entre direito, filosofia, ciências sociais e tecnologia que visa traduzir problemas técnicos em respostas regulatórias e práticas.
Um caso que sinaliza a urgência do debate aconteceu em 2025, no Arizona: a família de Christopher Pelkey usou inteligência artificial para recompor rosto e voz do falecido e fazer com que um depoimento — escrito pela irmã, não pronunciado por Pelkey em vida — fosse apresentado em tribunal como victim impact statement. Em outra direção, na China, o fenômeno da resurreição digital assumiu um caráter comercial, com empresas oferecendo avatares interativos construídos a partir de fotografias, gravações e metadados.
Ao abrir o ciclo de debates, o reitor Pierpaolo Limone enfatizou a importância de ultrapassar visões disciplinares restritas. No painel estarão juristas, filósofos, economistas e especialistas em TI; entre os nomes nacionais figuram Vincenzo Zeno-Zencovich e Anna Chimenti, e o centro receberá contribuições acadêmicas de Atenas, Lille, Kyiv, Maastricht, Oxford, Madrid, Londres e Edimburgo. A segunda jornada conta com a public lecture do professor Andrea Lavazza, de Filosofia Moral.
A professora Valeria Confortini, diretora do novo Centro e titular de direito privado na Università Pegaso, sintetiza o problema como uma reconfiguração dos princípios clássicos do direito das sucessões. A digitalização massiva da vida privada desafia normas sobre quem tem legitimidade para acessar contas e dados de falecidos, enquanto abre novos campos de tensão sobre a proteção da privacidade póstuma e sobre o status jurídico de bens digitais.
Do ponto de vista prático, essas questões se manifestam em problemas cotidianos: senhas guardadas apenas na memória, contratos com provedores que vedam o acesso por terceiros, bases de dados pessoais distribuídas por serviços multinacionais. Mas há também implicações simbólicas: as próximas gerações podem herdar mais playlists e e-books do que bibliotecas físicas, mudando a forma como a memória familiar é estruturada.
Além das perguntas sobre propriedade e acesso, a emergência de avatares alimentados por IA coloca um novo dilema. Quando um algoritmo reproduz fala, tom de voz e preferências — e interage com os vivos —, estamos diante de uma continuação legítima da pessoa falecida ou de uma representação artificial com riscos de manipulação e de violação da dignidade? A resposta exige avaliar camadas técnicas (como modelos de linguagem e síntese de voz), normas contratuais dos provedores e princípios de proteção de dados.
O propósito do Jean Monnet Centre não é apenas diagnosticar problemas, mas propor guias normativos que possam ser integrados nas políticas da União Europeia. Para isso, é necessário colocar lado a lado a experiência dos tribunais, as práticas comerciais de plataformas digitais e as reflexões éticas — traduzindo o fluxo de dados em regras operáveis: uma arquitetura regulatória tão robusta quanto a infraestrutura que pretende governar.
Como observador dos sistemas que tornam as cidades e sociedades funcionais, vejo esse debate como parte da construção dos novos alicerces digitais. A herança digital não é só técnica: é uma questão de coesão social, memória coletiva e confiança nas camadas de inteligência que intermediamos entre passado e futuro.
O seminário em Roma abre espaço para essa discussão multidimensional e pode ser acompanhado online através dos canais oficiais da Università Pegaso. Para profissionais e cidadãos, a tarefa é clara: articular direitos, responsabilidades e mecanismos técnicos para que a passagem entre vida e legado digital seja ordenada, transparente e respeitosa.

