CR7 eleito no B.O.A.T.: o Pallone d'Oro 'de todos os tempos' e o peso dos torcedores

CR7 é eleito vencedor do B.O.A.T. por sua temporada de 2008; votação de fãs paga reacende debate sobre memória e legitimidade do prêmio.

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CR7 eleito no B.O.A.T.: o Pallone d'Oro 'de todos os tempos' e o peso dos torcedores

Por Otávio Marchesini, repórter de Esportes da Espresso Italia.

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Em uma iniciativa que mistura memória, marketing e protagonismo do público, Cristiano Ronaldo foi declarado vencedor do prêmio B.O.A.T. (All-Time Ballon d'Or), promovido pela revista France Football para apontar a melhor temporada de todos os tempos na história do Pallone d'Oro. A votação especial, restrita e paga, escolheu a temporada de 2008 — quando Ronaldo defendia o Manchester United — como a mais brilhante, superando, entre outras, as campanhas de 2012 e 2023 de Lionel Messi.

A temporada premiada por essa consulta popular foi, de fato, extraordinária na carreira de CR7: além de conquistar a Champions League com o Manchester United, o jogador faturou o Pallone d'Oro daquele ano e levou também a Bota de Ouro europeia ao marcar 31 gols na temporada. Esses números alimentam a narrativa — e justificam parte da escolha —, mas o formato da votação abre questões sobre o que exatamente se está premiando: a melhor temporada na história ou a temporada mais lembrada e apoiada por uma parte disposta a pagar para votar?

Aos torcedores que participaram, havia uma condição específica: votar custava um token simbólico de 1 euro no site oficial da France Football. Além disso, o regulamento restringiu os votáveis a jogadores que já tenham conquistado o Pallone d'Oro mais de uma vez. Assim, a lista de candidatos ficou em dez nomes históricos — de Messi e Cristiano Ronaldo a lendas como Johan Cruyff, Alfredo Di Stéfano e Franz Beckenbauer — e coube ao público escolher qual temporada merecia o rótulo de melhor de todos os tempos.

O resultado suscitou dois movimentos complementares: celebração e debate. Nas redes, o próprio Cristiano Ronaldo compartilhou a imagem do troféu de 2008 com a mensagem: "O futebol pertence aos torcedores! Obrigado a todos os torcedores do mundo, o melhor Pallone d'Oro de todos os tempos também é de vocês". A declaração resume a estratégia do prêmio: reconhecer a centralidade do torcedor, ainda que esse protagonismo esteja mediado por uma transação monetária simbólica e pela curadoria prévia dos candidatos.

Como analista que busca traduzir o futebol em termos sociais e institucionais, vale lembrar que prêmios e rankings são, simultaneamente, instrumentos de memória coletiva e produtos de mercado. O B.O.A.T. reforça memórias e fixa narrativas — neste caso, a de 2008 como um ano definidor para Cristiano Ronaldo —, mas também reordena prioridades: quem decide a historicidade de uma temporada quando a escolha é vendida como participação popular?

Independentemente das discussões, a premiação fortalece a presença de Ronaldo no imaginário do futebol contemporâneo e reacende o debate sobre comparações intergeracionais. O reconhecimento formalizado pela France Football, ainda que em formato atípico, insere 2008 em uma topografia de episódios que os torcedores, clubes e historiadores terão de confrontar ao narrar a evolução do esporte nas últimas décadas.

Em última instância, o B.O.A.T. é um espelho: mostra como fãs desejam participar da construção da história e como as instituições do futebol respondem oferecendo produtos que misturam voto, memória e consumo.

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