De Sisti recorda Sandro Mazzola: 'Um dos jogadores italianos mais fortes; a criação da Assocalciatori foi nossa grande batalha'
De Sisti lembra Sandro Mazzola: talento, a 'staffetta' de 1970 e a luta pela criação da Assocalciatori, relato de quem viveu a era de ouro do futebol italiano.
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De Sisti recorda Sandro Mazzola: 'Um dos jogadores italianos mais fortes; a criação da Assocalciatori foi nossa grande batalha'
Ao telefone com a Espresso Italia, Giancarlo De Sisti fala com a voz menos vibrante do habitual. A manhã começou com a notícia da morte de Sandro Mazzola e o peso dessa perda atravessa lembranças, história e afetos. De Sisti — figura que virou bandeira da Fiorentina, campeão da Itália em 1969 e vencedor do Campeonato Europeu com a Itália em 1968 — devolve ao presente a memória de um tempo em que a elegância técnica e o estatuto social do futebol falavam tão alto quanto os resultados.
“Acredito que hoje a dor pela morte de Sandro Mazzola seja sentida por todos: amigos, conhecidos, familiares, torcedores em toda a Itália”, diz De Sisti. Eles se conheceram ainda jovens, quando De Sisti defendia a seleção regional do Lácio e Mazzola era capitão da seleção lombarda. O reencontro aconteceu nas juniores da seleção italiana; dali em diante, muitas partidas foram compartilhadas até a Copa do Mundo de 1970.
Sobre a figura de Mazzola, De Sisti não hesita: “Sandro foi um dos jogadores mais fortes da história italiana, talvez também em nível mundial. Honrou a camisa do Inter e da seleção; em campo, nós dois nos entendíamos muito bem”. A frase carrega a medida de quem testemunhou de perto a trajetória de um jogador central para a memória coletiva do futebol italiano.
Houve quem lembrasse, nos últimos dias, da famosa “staffetta” do México 1970 entre Gianni Rivera e Sandro Mazzola — um episódio tático que ainda gera debates. De Sisti contextualiza com a frieza de quem viveu o vestiário: “Muitos me perguntam se o que fez o técnico Valcareggi foi justo, ou se teria sido melhor colocá-los juntos desde o início. Valcareggi tinha um esquema na cabeça, ideias táticas difíceis de alterar. Em uma equipe, há sempre quem concorde e quem não concorde”.
Sobre a hipótese de ele próprio ceder espaço para que os dois jogassem desde o início, De Sisti sorri: “Eu teria me retirado” — e acrescenta com humildade que o dualismo entre Rivera e Mazzola, ao qual se vincularam tantas narrativas, terminou por beneficiá-lo: “Eu era outro tipo de jogador, ligava o meio-campo, tinha características diferentes; foi sorte minha”. A observação é também uma leitura sóbria sobre como papéis táticos e personalidades se organizavam num time nacional cuja imagem hoje é quase literária.
Além da relação em campo, há um capítulo menos futebolístico e mais institucional: a criação da Assocalciatori. De Sisti recorda que, em 1968, Rivera e Mazzola começaram a contatar capitães de vários clubes para construir um frente comum. “Na época eu era capitão da Fiorentina”, lembra, e sublinha que a fundação da associação de jogadores foi uma batalha coletiva — uma tentativa de dar voz e proteção a atletas em um período de transição nas relações de trabalho do futebol italiano.
Nos anos seguintes, apesar das trajetórias distintas — Mazzola como símbolo do Inter, De Sisti como emblema da Fiorentina — a correspondência entre os dois permaneceu: cartões-postais, sinais de um respeito que atravessou rivalidades e geografias. Agora, com a partida de Sandro Mazzola, fica o relato de quem acompanhou de perto uma geração que moldou não apenas resultados, mas também instituições, estilos e memórias públicas.
Como analista e repórter, recebo do relato de Giancarlo De Sisti mais do que uma série de reminiscências: recebo um mapa afetivo e institucional de um futebol que se dizia elegante e consciente do seu lugar na sociedade. Perde-se um jogador; permanece uma história que continua a nos ensinar sobre papéis, escolhas e o tempo que transforma atletas em símbolos.

