Milano‑Cortina 2026: O 'pesadelo logístico' que desafia a imagem sustentável da Itália

NYT e jornais europeus criticam Milano‑Cortina: sedes distantes, atrasos e 1,6 mi m³ de neve artificial questionam a sustentabilidade dos Jogos.

Milano‑Cortina 2026: O 'pesadelo logístico' que desafia a imagem sustentável da Itália

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Milano‑Cortina 2026: O 'pesadelo logístico' que desafia a imagem sustentável da Itália

Hoje começam os Jogos da 25ª edição dos Giochi Invernali e com eles reaparece uma narrativa que mistura encanto e apreensão. O New York Times descreve o evento como um verdadeiro pesadelo logístico: oito centros espalhados pelo norte da Itália, unidos por túneis, trens extras e linhas de ônibus reforçadas — cada intervenção transformada em potencial ponto de falha. Como observador atento, sinto que é como tentar costurar um manto com retalhos de paisagens: cada pedaço lindo, mas nem sempre fácil de alinhar.

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Os locais de competição estão separados por centenas de quilômetros e, mesmo quando parecem próximos no mapa, são separados por estradas sinuosas de montanha e vales profundos. A prova de descida livre masculina será em Bormio, a distância de Milão; o esqui nórdico encontra-se em Val di Fiemme; o biatlo em Anterselva, na borda com a Áustria. Essa dispersão foi apresentada pelos organizadores como uma solução de sustentabilidade — sem megaobras novas, apenas ajustes nas infraestruturas locais, inclusive túneis com aquela curiosa bênção episcopal — e um convite ao público para descobrir uma suposta "Itália autêntica" num roteiro quase obrigatório.

Mas a imprensa internacional não tem alisado essa narrativa. O tabloide alemão Bild tem criticado os atrasos crônicos nas obras, apontando problemas como os da funivia Apollonio‑Socrepes, em Cortina. A cobertura descreve o clima nos canteiros como um misto de impaciência e incerteza: previsões que oscilam entre duas semanas e dez dias, um capataz que evita falar e o mantra resignado de "acabaremos, mais cedo ou mais tarde".

Da França, Le Monde acende outro foco de preocupação: a produção maciça de neve artificial. Segundo o jornal, foram gerados 1,6 milhões de metros cúbicos de neve para assegurar as provas — um prodígio tecnológico que consome água e energia e que provoca críticas de ambientalistas e cientistas. É como ver uma colheita que exige irrigação artificial: fértil, talvez, mas à custa de recursos que pertencem ao tempo e ao território.

Enquanto as vozes estrangeiras desenham o quadro de um evento costurado às pressas, a Itália corre o risco de apresentar ao mundo um espetáculo muito "à italiana": charme e retórica sobre inovação e sustentabilidade, mas uma máquina logística que parece mais empenhada em fechar prazos do que em garantir qualidade e solidez. Para quem vive na cadência das estações e observa o "tempo interno do corpo" da cidade, essa tensão entre imagem e prática soa familiar — é a respiração da cidade em dias de festa, mas também em noites de vigília.

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