Sandro Mazzola: ‘A Inter é como uma mãe’ — a última entrevista inédita do capitão lendário
Última entrevista inédita de Sandro Mazzola: memórias da Inter, da Taça dos Campeões, do encontro com Puskas e do 10º scudetto.
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Sandro Mazzola: ‘A Inter é como uma mãe’ — a última entrevista inédita do capitão lendário
Por Otávio Marchesini, Espresso Italia
O clube Inter publicou em seus canais oficiais a última entrevista inédita de seu capitão lendário, Sandro Mazzola. A gravação, divulgada após a sua morte, apresenta memórias íntimas e um tom de afeto que ultrapassa a cronologia dos títulos: para Mazzola, a Inter funcionou como uma casa, uma escola e, acima de tudo, uma mãe.
O ex-camisa 10 recorda os primeiros anos com honestidade quase etnográfica: 'A Inter é a mãe de um jovem. Eu me lembro perfeitamente dos meus primeiros anos. Não era titular, mas era convocado para treinar com os grandes. Eu os observava, tentando entender como jogavam com a bola; foi uma experiência belíssima que me ensinou muito'. Esse relato traduz não só o papel formador do clube, mas a natureza comunitária de um projeto que, naqueles anos, tinha dimensão social para a cidade e para uma geração.
Entre as lembranças, Mazzola destaca a primeira Coppa dei Campioni, o troféu que mais lhe marcou: 'A primeira Taça dos Campeões é o troféu a que me sinto mais ligado, finalmente conseguimos vencê-la. Lutamos muito para obtê-la; cada entrada em campo era com o fôlego preso, como se disséssemos "força, rapazes, estamos lá". Sabíamos que precisávamos nos doar; o Real Madrid era uma grande equipe, mas, ajudando-nos mutuamente, conquistamos a vitória, que naquele momento era o mais importante'.
Há também uma passagem em que o campeão descreve encontro com Puskas, figura que, em seu relato, encarna a grandeza do futebol daquele tempo: quando Puskas veio ao seu encontro, ele sentiu-se pequeno diante de uma das maiores referências do esporte. 'Quando me disse aquilo, eu teria querido me deitar no chão e ouvi-lo para sempre', confidenciou, numa frase que conserva a reverência de quem se confrontou com a história viva do jogo.
O episódio do décimo título nacional — a conquista que garante a estrela — ocupa lugar de destaque nas memórias de Mazzola sobre Milão: 'A vitória da primeira estrela foi um momento interessantíssimo: já no vestiário estávamos tensos, não podíamos perder uma ocasião assim, mas em campo tudo se esclareceu. Nos olhamos e entendemos o que deveríamos fazer. Em 1971 não pensávamos que conseguiríamos; quando se reverte um jogo graças ao que existe dentro de sua equipe e dentro de si mesmo, é algo fantástico, que se guarda para sempre'.
Por fim, o capitão lembra o vínculo com os torcedores: 'Os torcedores são uma coisa fantástica. Crescemos com a Inter, tínhamos o torcedor no coração. Eu ia para casa e passava por um bar de torcedores; quando saía, todos já estavam prontos para me dizer que estavam comigo e que a Inter era deles'. A lembrança sublinha a reciprocidade entre clube e cidade — um laço que define a memória coletiva do futebol italiano.
Essa última entrevista não é apenas um relato de feitos; é um testemunho sobre a formação de identidades esportivas, sobre como clubes modelam trajetórias humanas e como certas vitórias se tornam marcos de afetividade e pertencimento. Mazzola, ao falar, devolve à narrativa da Inter a dimensão humana que faz dos troféus episódios de uma história cultural mais ampla.

