Prada transforma a saia em manifesto: Miuccia e Raf reinventam o ícone na Primavera/Verão 2027
Prada transforma a saia em manifesto na Primavera/Verão 2027: Miuccia e Raf reinventam a peça entre nylon técnico, cristais e contradições sociais.
RESUMO ✦
Sem tempo? A Lili IA resume para você
Prada transforma a saia em manifesto: Miuccia e Raf reinventam o ícone na Primavera/Verão 2027
Por Chiara Lombardi — Na abertura da Milano Fashion Week, nos espaços da Fondazione Prada, Prada apresenta sua leitura contemporânea de um clássico: a saia. Para a Primavera/Verão 2027, Miuccia Prada e Raf Simons assumem a peça como “objeto contemporâneo, flexível e adaptável”, transformando uma questão de comprimento em um verdadeiro exercício de semiótica da moda.
O timing foi afiado como uma cena bem cortada: enquanto a opinião pública italiana fervilha em torno do debate sobre o comprimento da saia — inflamado por declarações recentes de Antonio Tajani e por uma piada acrescentada pelo líder da FN, Roberto Vannacci — a dupla estilística coloca o próprio objeto no centro do palco. Tajani chegou a se desculpar em seguida; Prada, por sua vez, recoloca a pergunta no outro extremo: não o que uma saia diz sobre quem a usa, mas quantas formas ela pode assumir.
“A saia é uma estrutura de referência”, disse Miuccia Prada ao apresentar a coleção. E, como uma tela cinematográfica, serve de superfície para variações narrativas. A coleção conta com 63 saídas — um roteiro extenso onde a silhueta se mantém reconhecível e, ao mesmo tempo, se reescreve a cada cena.
A primeira aparição já é uma afirmação: uma saia vermelha, acima do joelho, com um grande fenda, combinada a um top tipo sutiã preto. Em seguida, a peça muda de registro: mini plissada com pequenas flores, longa em formato A, envelope, plissada clássica. Em alguns looks a saia abre-se em forma de corola; em outros incha em balão. Há combinações com suéteres, com jaquetas de couro tipo chiodo, e até com casacos corta-vento. Parte das saias aparece totalmente forrada em nylon, atravessada por ruches, fechada com botões que lembram joias, ou inteira coberta de cristais — como um figurino que alterna entre a proteção industrial e o brilho do salão.
O recurso ao industrial como ornamento é uma das traduções mais interessantes do desfile: o velcro, antes funcional, torna-se base para bordados de cristais; os grandes fechos automáticos metálicos viram adereços joalheiros; a crinolina, originada para moldar a forma, é reapropriada como superfície decorativa ou concha protetora. Elementos técnicos, como o Re-Nylon e o ciré opaco, convivem com acabamentos preciosos, num jogo de contrastes que opera como um reframe da realidade.
Há ainda uma cena teatral: em alguns looks as modelos seguram a saia com a mão, como se ela pudesse escapar — um gesto corporal que recorda a fragilidade performática do vestir. A resposta de Prada e de Raf Simons não é ingênua; é propositalmente ambígua. A saia aqui é convite à contradição, espelho do nosso tempo, material que insiste em multiplicar significados em vez de reduzi-los.
No fundo, a coleção funciona como um comentário estético e político: diante das tentativas de fixar significados e controlar corpos através de medidas e regras, Prada oferece o oposto — uma peça que se recusa à literalidade e reclama pluralidade. É, em termos culturais, um pequeno manifesto vestido de alta-costura.
Em cena, a moda prova mais uma vez que não é somente espetáculo, mas um arquivo de imagens que traduzem inseguranças, debates e desejos coletivos. A saia de Prada é, portanto, menos uma resposta definitiva e mais um espelho onde se projeta o roteiro oculto da sociedade: complexo, contraditório e generosamente mutável.

