El Niño 2026: risco do evento mais extremo já registrado e a falha global na adaptação
El Niño 2026 pode ser o mais extremo já registado; alerta da ONU e ação de emergência no Peru expõem falhas financeiras na adaptação climática.
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El Niño 2026: risco do evento mais extremo já registrado e a falha global na adaptação
Por Marco Severini — A comunidade internacional enfrenta um momento crítico no tabuleiro climático. À medida que as previsões convergem, cresce a probabilidade de que o próximo El Niño atinja níveis inéditos até o final de 2026, impondo um movimento decisivo nas frentes da política, da economia e da segurança humana.
Relatórios recentes pintam um quadro de vulnerabilidade agravada: o Relatório Adaptation Gap do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (UNEP) estima que são necessários cerca de 305 bilhões de dólares por ano até 2035 para reduzir impactos das mudanças climáticas. Esse montante constitui os alicerces necessários para reforçar infraestruturas, planos de contingência e resiliência das comunidades mais expostas. No entanto, os fluxos financeiros dos países desenvolvidos para o Sul global permanecem significativamente aquém dessa meta — fragilizando a diplomacia climática e ampliando assimetrias já existentes.
Após um verão excepcionalmente quente na Europa, incluindo a Itália, e com o registro do segundo setembro mais quente desde que há medições, as agências científicas alertam para uma evolução rápida do evento. A NOAA avalia em 81% a probabilidade de que se forme, nos próximos meses, o que poderia ser o El Niño mais intenso já observado; há também cerca de 97% de chance de persistência desse padrão até o início da primavera de 2027.
A Organização Meteorológica Mundial (WMO) adverte que as temperaturas da superfície do mar no Pacífico tropical central e oriental deverão subir a níveis recorde no trimestre outubro-novembro-dezembro de 2026. Esse aquecimento marítimo é o motor que pode alterar, de forma assertiva, regimes de precipitação globais, somando seus efeitos àquele aquecimento de origem antrópica que já vem redesenhando fronteiras invisíveis de risco.
O impacto prático já se faz sentir na América do Sul. O governo do Peru, sob a administração da presidente Keiko Fujimori, declarou estado de emergência por 60 dias em quase três quartos dos distritos do país, englobando localidades nas 25 regiões administrativas. A medida visa mobilizar intervenções urgentes das esferas nacional, regional e local diante do risco de precipitações excepcionais e inundações. Segundo as autoridades, a capacidade dos governos regionais para responder sozinhos é insuficiente — uma evidência clara da necessidade de melhores engrenagens financeiras e técnicas.
Na linguagem da cartografia estratégica, estamos diante de uma reconfiguração da tectônica de poder climática: países e comunidades mais frágeis poderão sofrer deslocamentos econômicos e sociais significativos. As previsões apontam para aumento de temperaturas, alteração de padrões pluviométricos e elevação dos eventos extremos, incluindo secas e inundações, com consequências para agricultura, ecossistemas e cadeias de abastecimento.
Como analista, vejo duas frentes que exigem resposta imediata: primeiro, a consolidação de compromissos financeiros concretos e previsíveis, que traduzam em alicerces reais a retórica da cooperação. Segundo, a coordenação técnica entre agências multilaterais e governos locais para proteger populações vulneráveis e infraestruturas críticas. Sem esses movimentos, o mundo corre o risco de ver o próximo El Niño não apenas como um fenômeno meteorológico, mas como um catalisador de crises humanitárias e geopolíticas.
Num tabuleiro em que cada peça se move em função das demais, é imperativo que a diplomacia climática passe de intenção a execução. O relógio do clima e dos ativos humanos segue ticando; a próxima jogada determinará a resiliência — ou a fragilidade — de vastas regiões do planeta.

