Do descarte ao recurso: biorrefinaria em cascata transforma restos de tomate e azeitona em matérias‑primas para o Mediterrâneo
Projeto Polymers-5B transforma resíduos de tomate e azeitona em matérias‑primas, criando biorrefinarias em cascata e bio‑polímeros sustentáveis.
RESUMO ✦
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Do descarte ao recurso: biorrefinaria em cascata transforma restos de tomate e azeitona em matérias‑primas para o Mediterrâneo
Apresentado na Ecomondo 2026, o projeto europeu Polymers-5B revela um caminho concreto para converter os resíduos da agroindústria mediterrânea em novas matérias‑primas com alto valor agregado. Financiado pela União Europeia com 5,6 milhões de euros, o estudo propõe um modelo de biorrefinaria em cascata que extrai sucessivamente várias frações úteis dos mesmos fluxos de resíduos, reduzindo o desperdício e criando oportunidades económicas locais.
Iniciado em 2024 como um programa de quatro anos, o Polymers-5B reúne 12 parceiros europeus sob a coordenação do Politécnico de Lisboa, Departamento de Bioengenharia (Ist‑IBB). Entre os participantes está a italiana NSBProject, uma PME inovadora especializada em transferência tecnológica que atuou como innovation broker, avaliando modelos de negócio e as possibilidades de implantação de biorrefinarias nas áreas agroindustriais do Mediterrâneo, incluindo o Brasil em diálogos técnicos e de cooperação.
Os resultados foram sistematizados no artigo científico Circular Bioplastics from Mediterranean Waste: High-Performance Polymers via Cascaded Biorefinery and Enzymatic Polycondensation, assinado por Luis Fonseca (Ist‑ID), Riccardo Varotto e Andrea Jester (NSBProject). O trabalho foi selecionado na Call for Papers da Ecomondo e apresentado entre os 27 contributos na sessão dedicada a plásticos, bioplásticos e têxteis — um espaço onde a ciência encontra a indústria para iluminar novos caminhos práticos.
A proposta técnica distingue‑se por não limitar a recuperação dos resíduos a um único produto. A operação de biorrefinaria em cascata permite extrair, por exemplo, licopeno dos resíduos do processamento do tomate, um pigmento natural de apelo alimentício e cosmético; e polifenóis da sansa de azeitona (resíduo da produção de azeite), compostos valorizados na cosmética e em outras aplicações industriais. Ainda no mesmo fluxo, obtém‑se pectina, amplamente utilizada como espessante na indústria alimentar, e moléculas fundamentais para a síntese de novos poliésteres de origem biológica.
Um diferencial importante do processo é o uso de enzimas — catalisadores biológicos que permitem reações em condições mais brandas que grande parte dos métodos químicos tradicionais, reduzindo a necessidade de solventes agressivos e insumos tóxicos. A pesquisa já alcançou o nível de maturidade tecnológica TRL 5, correspondente à validação em ambiente relevante, sinalizando que a transição do laboratório para demonstrações piloto regionais é viável.
Do ponto de vista socioeconômico, o modelo proposto permite que o valor gerado pela conversão de resíduos permaneça nas regiões produtoras, fomentando cadeias locais de valor e empregos qualificados. Essa abordagem encaixa‑se na visão mais ampla de economia circular, em que o resíduo deixa de ser um passivo e passa a ser a semente de novos produtos e serviços.
Como curadora de projetos e narrativas do Espresso Italia, vejo nesse esforço científico uma luz que ilumina possibilidades reais de renovação: semear inovação instalada nas comunidades, tecer laços entre ciência e pequenos produtores, e cultivar um horizonte límpido onde indústria e meio ambiente prosperam em sintonia.
O desenvolvimento de biorrefinarias regionais no Mediterrâneo — e o aprendizado técnico que elas oferecem — pode inspirar iniciativas análogas em outros territórios que compartilham climas, culturas agrícolas e desafios de descarte. Em suma, Polymers-5B não apenas demonstra uma tecnologia promissora; oferece um roteiro prático para transformar desperdício em legado.

