Abu Dhabi convoca negociações com representação europeia; Zelensky denuncia ataque a Komyshuvakha durante buscas a vítimas
Zelensky denuncia ataque a resgatistas em Komyshuvakha; Abu Dhabi reúne russos e ucranianos com representação europeia e impacto nos sistemas energéticos.
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Abu Dhabi convoca negociações com representação europeia; Zelensky denuncia ataque a Komyshuvakha durante buscas a vítimas
Por Marco Severini — Em um movimento que altera o tabuleiro diplomático, estão agendadas para 10 e 11 de novembro em Abu Dhabi conversações entre delegações russa e ucraniana, mediadas pelos Estados Unidos. A novidade: os europeus terão representação oficial e, segundo o ministro das Relações Exteriores francês Jean-Noël Barrot, a França estará presente no local.
Enquanto isso, na linha de frente da tragédia humanitária, o presidente ucraniano Volodymyr Zelensky denunciou que um ataque com um drone FPV atingiu a localidade de Komyshuvakha, onde equipes de resgate buscavam os desaparecidos do bombardeio contra uma escola subterrânea na região de Zaporizhzhia — episódio que já deixou 55 mortos. "É um ato de absoluto cinismo e brutalidade", escreveu Zelensky nas redes sociais, ressaltando que podem ainda haver vítimas sob os escombros.
O contexto operacional descrito pelo presidente é de uma campanha aérea e de mísseis em escalada: apenas nesta semana, segundo Zelensky, as forças russas lançaram 115 mísseis de tipos diversos, cerca de 1.900 bombas aéreas guiadas e mais de 3.000 drones, muitos ataques combinados incluindo mísseis balísticos. Esses números compõem uma ofensiva cuja lógica lembra um movimento deliberado para minar os alicerces da infraestrutura civil.
Os efeitos sobre a rede energética ucraniana são significativos. A companhia DTEK informou que, após um ataque noturno a instalações críticas, mais de 600.000 habitantes da região de Dnipropetrovsk ficaram sem eletricidade. Na região de Kharkiv, autoridades locais apontaram que um drone danificou infraestrutura crítica, deixando cerca de 250.000 usuários sem energia. O Ministério da Energia ucraniano descreveu a ação como uma ofensiva em larga escala contra instalações energéticas, que afetou cinco regiões e prejudicou seriamente a transmissão de eletricidade até Kiev.
Do ponto de vista estratégico, estamos diante de dois vetores simultâneos: um movimento diplomático que busca criar canais de comunicação e um aumento das operações militares que pressiona a resiliência das cidades e infraestruturas. É a tectônica de poder que redesenha, de forma indireta, as fronteiras operacionais do conflito — um jogo de xadrez onde cada ataque às linhas de energia enfraquece a capacidade de resistência civil e a infraestrutura se torna, por natureza, alvo de vantagem.
Em Abu Dhabi, a presença anunciada da França e de representantes europeus confere ao fórum um caráter mais amplo que o de simples encontro bilateral. Isso indica um reconhecimento de que, mesmo fora do Conselho de Segurança, o diálogo entre Moscou e Kyiv exige legitimidade e garantias provenientes de um espectro de atores internacionais.
Enquanto as negociações se aproximam, o imperativo humanitário permanece: socorro às vítimas, restabelecimento de serviços essenciais e proteção de civis sob bombardeios contínuos. O resultado dessas conversações, se houver, dependerá tanto da capacidade diplomática dos mediadores quanto da vontade das partes em conter o uso da força como ferramenta de coerção estratégica.

