Novaya Gazeta anuncia fim das atividades na Rússia após pressão das autoridades e dos serviços

Novaya Gazeta anuncia encerramento das atividades na Rússia em 9 de novembro após pressão das autoridades e serviços secretos; redação cita assassinatos de jornalistas.

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Novaya Gazeta anuncia fim das atividades na Rússia após pressão das autoridades e dos serviços

Por Marco Severini — Em uma nota que mistura lamento e diagnóstico geopolítico, Novaya Gazeta anunciou que cessará suas atividades em território russo a partir de 9 de novembro. A redação, estabelecida por três décadas no mesmo prédio em Moscou, declara com precisão calculada que "fomos mortos" pelas medidas combinadas das autoridades russas e dos serviços secretos, e que naquele dia "apagarão as luzes, desligarão os servidores e se retirarão".

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O comunicado, publicado na edição europeia do jornal — mantida ativa sob o projeto Novaya Gazeta — Europe — traça uma história de cerceamento que tem desdobramentos legais, políticos e financeiros. Classificado por Moscou como agente estrangeiro e posteriormente privado da licença para operar em 2022, o jornal permaneceu no espaço russo apenas na modalidade de apuração local para investigações. Parte significativa da redação já se deslocou para o exterior, com base principal em Riga, mas mesmo essa estrutura europeia foi declarada "organização indesejável" pelas autoridades russas, consolidando um quadro de exclusão institucional.

A medida política de hoje insere-se num movimento mais amplo: segundo o relatório de 2026 da Reporters Sans Frontières (RSF), a Rússia figura em 172º lugar entre 180 países avaliados no World Press Freedom Index, com a situação da imprensa classificada como "muito grave". Essa posição internacional revela o contexto — tectônica de poder — em que operavam redações independentes como a da Novaya Gazeta.

O extenso texto de despedida relembra, com pesar e nomes, os jornalistas que pagaram com a vida o exercício do ofício: Anna Politkovskaya, assassinada em 7 de outubro de 2006; Igor Domnikov; Yuri Shchekochikhin; Stas Markelov; Anastasia Baburova; Natalya Estemirova. São capítulos de uma história em que o jornalismo investigativo funcionou como peça de resistência — um bisel crítico na arquitetura informativa do país — e acabou atingido por uma campanha sistemática de erosão e intimidação.

Além das ações repressivas diretas, a redação denuncia medidas econômicas deliberadas: sistemas de doação foram desativados, cortando a principal via de financiamento popular que sustentava as operações. "Em outras palavras, nos privaram de qualquer fonte de financiamento. Completamente", diz o comunicado, descrevendo um cerco econômico que complementou a pressão legal e administrativa.

Do ponto de vista estratégico, a decisão da Novaya Gazeta traduz um movimento defensivo diante de um tabuleiro no qual as peças institucionais foram rearranjadas para neutralizar vozes dissonantes. Não se trata apenas de um fechamento operacional: é o reconhecimento de que os alicerces da liberdade de imprensa — na prática — tornaram-se frágeis demais para sustentar a continuidade de um jornalismo de investigação independente em solo russo.

O desfecho também relança questões sobre como a comunidade internacional, organizações de direitos humanos e governos democráticos respondem a esse redesenho de fronteiras informacionais. A manutenção do projeto editorial fora da Rússia representa uma tentativa de preservar memória, arquivo e a prática profissional. Contudo, a perda do ponto físico, a suspensão de servidores e a impossibilidade de receber contribuições locais marcam uma derrota concreta no terreno onde o jornalismo cumpre sua função social mais básica: informar cidadãos em seu próprio país.

Em termos simbólicos, o anúncio é o movimento decisivo de uma partida longa e cruel: o rei do jornalismo independente foi encurralado, as torres foram imobilizadas, e resta à redação buscar novos espaços para conservar a peça mais valiosa — a verdade.

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