Austrália responde sobre proposta de “membros associados” da UE e reafirma foco no acordo comercial
Austrália responde à ideia de 'membros associados' da UE e prioriza finalização do acordo comercial UE-Australia, com debate sobre quotas e ratificação.
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Austrália responde sobre proposta de “membros associados” da UE e reafirma foco no acordo comercial
Por Marco Severini — Em uma resposta institucional e contida, o governo da Austrália quebrou o silêncio sobre a sugestão de que países como a Austrália e a Nova Zelândia pudessem vir a ser convidados como membros associados da UE. Em declarações exclusivas, o porta-voz australiano reafirmou que os laços com a UE "não foram jamais tão sólidos nem tão importantes", mas sublinhou que Canberra permanece concentrada na finalização do acordo comercial UE-Australia — um movimento que, disse, aproximará ainda mais as partes.
Na cadência diplomática habitual, o porta-voz afirmou que o acordo em negociação é "único para uma geração" e que oferece a agricultores, exportadores, produtores e empresas australianas acesso aos 27 Estados-membros e a um mercado de cerca de 450 milhões de consumidores. "A Austrália é uma nação comercial e, em tempos de incerteza global, aprofundar parcerias comerciais é uma opção economicamente sensata", declarou.
Paralelamente, um representante neozelandês disse à Reuters que "não houve discussões com a UE sobre a possibilidade de a Nova Zelândia tornar-se um membro associado" — dissipando, ao menos por ora, conversas públicas que chegaram após observações do presidente do Parlamento Europeu, Robert Metsola, e de abertura simbólica feita pela presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, em relação ao Canadá.
Os fatos concretos remetem, contudo, ao terreno do comércio e às fricções que nele residem. Os textos do acordo comercial UE-Australia foram finalizados em março passado, mas a sua entrada em vigor depende de um processo de ratificação que promete ser espinhoso. No centro das preocupações estão as quotas atribuídas a produtos sensíveis: 30.600 toneladas de carne bovina australiana e 25.000 toneladas de carne ovina/cordeiro por ano. Agricultores europeus temem que esses volumes se acumulem a acessos preferenciais já concedidos em outros pactos, como o acordo com os países do Mercosul, enquanto o setor bovino australiano almejava contingentes próximos de 50.000 toneladas.
Internamente, o acordo também enfrenta resistência. A coalizão Liberal-National exigiu do ministro do Comércio, Don Farrell, renegociações, refletindo uma tectônica de poder doméstica que pode redesenhar as margens de manobra do Executivo em Canberra. Importante lembrar: a Austrália é hoje o segundo maior exportador mundial de carne bovina, atrás apenas do Brasil, e negociações entre Bruxelas e Canberra já naufragaram em 2023 por divergências sobre contingentes agrícolas.
Do ponto de vista estratégico, a menção a "membros associados" da UE funciona mais como um lance diplomático do que uma proposta operacional imediata. É um sinal no tabuleiro: avalia reacções, cria opções políticas e redesenha, com cautela, eixos de influência. Para países de larga tradição comercial como Austrália e Nova Zelândia, a prioridade pragmática permanece o acesso aos mercados e a estabilidade das regras de comércio — alicerces pragmáticos que, frequentemente, valem mais do que rótulos institucionais.
Em suma, enquanto a retórica europeia explora novas afinidades e ancoragens simbólicas, Canberra e Wellington mantêm um enfoque prático. O desenlace dependerá, como sempre, da conjugação entre pressões domésticas, cálculos comerciais e o jogo mais amplo das alianças internacionais — um movimento decisivo no tabuleiro que ainda está longe de ser concluído.

