Theo Francken: Europa apostou tempo demais no soft power e paga preço na defesa
Theo Francken alerta: Europa apostou demais no soft power e precisa reforçar defesa e indústria militar diante de lacunas estratégicas.
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Theo Francken: Europa apostou tempo demais no soft power e paga preço na defesa
Por Marco Severini — Em declarações ao Defence and Space Summit da Euronews, o ministro belga da Defesa, Theo Francken, traçou um retrato sóbrio e estratégico da posição atual do continente: a Europa pagou caro por uma aposta prolongada no soft power. Segundo Francken, tanto nas capacidades militares quanto na base industrial de defesa, os países europeus enfrentam lacunas significativas que não se corrigem por decreto.
"A Europa foi muito hábil em investir no soft power, na proteção social; é magnífico ter sistemas de pensões e um amplo estado de bem-estar", afirmou o ministro. "Mas quando há guerra ou uma ameaça híbrida, não temos o suficiente." A frase resume um diagnóstico geopolítico que combina memórias institucionais com um aviso tático: políticas públicas que consolidaram alicerces sociais não substituem arsenais e linhas de produção militares.
Francken recordou a trajetória belga na questão do financiamento militar. A Bélgica, que já foi o "pior aluno" da OTAN em termos de gasto, registrou uma recuperação, alcançando pela primeira vez em 2025 a meta de 2% do PIB em despesa militar, após ter caído para 0,97% em 2014. Ainda assim, o ministro sublinha que isso é apenas um ponto de partida: a Aliança prevê elevar a média ao patamar de 3,5% até 2035.
O movimento orçamentário belga — com o país comprometido a permanecer em torno dos 2% até 2029 devido às restrições fiscais e a um dos piores déficits públicos da zona euro — ilustra a tectônica de poder que atravessa as democracias europeias. "Agora dobrámos o orçamento, chegámos aos 2%", disse Francken. "Sei que precisamos fazer mais, mas é um processo complexo. Em 18 meses não posso reparar o que foi negligenciado por 40 anos."
Enquanto isso, Bruxelas acelera políticas para reforçar a capacidade industrial de defesa e os Estados-membros da OTAN elevam os orçamentos. Francken reconhece sinais de progresso, mas alerta para a persistência de lacunas tecnológicas e logísticas que limitam a prontidão coletiva.
Como analista, vejo estas observações como um reconhecimento público de que a Europa enfrenta um duplo desafio: reconstruir uma base industrial estratégica e reequilibrar a arquitetura da sua segurança sem esvaziar os sistemas sociais que sustentam a coesão interna. É um movimento delicado no tabuleiro: consolidar o hard power sem desmanchar os alicerces democráticos e sociais que legitimam esse reforço.
Francken lembra também a identidade histórica da Bélgica — fundador da OTAN e da União Europeia — e a tensão entre a tradição diplomática belga e a exigência contemporânea por capacidades duras. A entrevista completa ao Defence and Space Summit está disponível na cobertura da Euronews e oferece, como poucas declarações públicas recentes, uma leitura franca sobre onde se encontra a Europa na geopolítica militar do pós-2020.
Em suma, a advertência do ministro belga equivale a um chamado estratégico: não basta cuidar dos edifícios civis — é preciso reconstruir as fábricas de defesa e a prontidão operacional, antes que o tabuleiro exija movimentos irreversíveis.

