Grupos líbios intimidam migrantes e navios de resgate no Mediterrâneo central, alerta ONG
SOS Méditerranée alerta que grupos líbios intimidam migrantes e navios de resgate no Mediterrâneo central; relatos de perseguições, colisões e mortes.
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Grupos líbios intimidam migrantes e navios de resgate no Mediterrâneo central, alerta ONG
Por Marco Severini — A situação no Mediterrâneo central configura‑se como um ambiente progressivamente mais hostil para quem atravessa a rota em busca de segurança e para as embarcações humanitárias que tentam resgatá‑los. É esse o diagnóstico preciso e inquietante apresentado por SOS Méditerranée, que documenta uma série de incidentes onde meios atribuíveis a grupos líbios teriam empregado intimidação, perseguição e manobras perigosas contra navios de resgate e migrantes.
Segundo a organização, entre junho e julho deste ano ocorreram pelo menos sete episódios nos quais embarcações “ligadas a atores líbios” se aproximaram em alta velocidade das navios humanitários, acompanharam‑nos por horas e, em alguns casos, chegaram a perseguir essas embarcações até águas internacionais. Paralelamente, foi observado um “aumento significativo” na presença de motoscas não identificados, que a ONG associa a diversos grupos armados operando a partir do litoral líbio.
O relato contém episódios especialmente graves: manobras deliberadas que teriam resultado em colisões e em tentativas de speronar botes com pessoas em perigo, expondo diretamente vidas civis a risco imediato. Trata‑se de ações que transformam operações de salvamento em um tabuleiro onde cada movimento pode ter consequências fatais.
Para SOS Méditerranée, o recrudescimento destes incidentes está ligado, em parte, à expansão da cooperação europeia com atores líbios destinada a conter fluxos migratórios rumo à Europa — uma arquitetura de controle que tem alterado a dinâmica na área e erodido os alicerces de uma diplomacia capaz de garantir segurança e respeito aos direitos humanos.
O histórico recente volta à tona com o caso da Ocean Viking, em que a ONG acusa a guarda costeira líbia de ter disparado mais de 100 tiros contra a embarcação enquanto esta se encontrava em águas internacionais, colocando em risco a tripulação e os 87 migrantes a bordo. Procedimentos judiciais foram iniciados na Itália, França e Alemanha, mas, conforme denúncia da ONG, ainda não houve respostas satisfatórias por parte das autoridades europeias quanto à identificação dos responsáveis. A organização solicita uma investigação "completa e independente".
O panorama estatístico é igualmente alarmante. A IOM (Organização Internacional para as Migrações) registra que, nos primeiros quatro meses do ano, 821 pessoas morreram ou foram dadas como desaparecidas no Mediterrâneo central — um aumento de 111% em relação ao mesmo período de 2025. Ao mesmo tempo, as chegadas caíram: foram 8.577 desembarques, uma redução de 46%. Esse paradoxo revela uma rota cada vez mais letal, onde menos tentam a travessia e mais perecem na viagem.
Do ponto de vista estratégico, tratamos de um redesenho de fronteiras invisíveis: a cooperação operacional com atores estatais e paraestatais líbios desloca a linha de contenção para além do litoral, transformando o mar em um espaço de influência concorrente. É necessária uma resposta multilaterais, que una investigação independente, responsabilização dos responsáveis e revisão das políticas que, inadvertidamente, aumentam a exposição dos migrantes ao perigo.
Enquanto isso não ocorre, a tectônica de poder no Mediterrâneo central continuará a produzir vítimas e a comprometer a integridade das missões humanitárias — um custo que, do ponto de vista da estabilidade regional e da dignidade humana, não podemos aceitar.

