Merz acusa AfD de “limpeza étnica” e Weidel proclama o fim da coalizão negro-vermelha no Bundestag
Merz acusa AfD de 'limpeza étnica' enquanto Weidel proclama o fim da coalizão negro-vermelha no heated debate sobre o orçamento da Chancelaria.
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Merz acusa AfD de “limpeza étnica” e Weidel proclama o fim da coalizão negro-vermelha no Bundestag
No plenário do Bundestag, o debate em torno do orçamento previsto para a Chancelaria Federal para 2027 transformou-se num duelo político de ampla carga simbólica e estratégica. A sessão, ápice da semana dedicada à lei orçamentária, ocorreu a três dias da eleição em Saxônia-Anhalt, onde a CDU sofreu um revés que redesenha temporariamente o tabuleiro político.
Quem abriu o debate foi a copresidente da AfD, Alice Weidel, saudada com aplausos prolongados pelos deputados de seu partido. Em tom de anúncio estratégico, Weidel declarou que “os eleitores em Saxônia-Anhalt disseram, na língua do soberano democrático, com absoluta clareza: a coalizão negro-vermelha está acabada”. Para ela, o orçamento da Chancelaria seria uma “declaração de capitulação” do governo.
Weidel acusou a coligação de incapacidade para administrar o que chamou de “receitas fiscais recorde”, imputando o erro a fatores que, em seu diagnóstico, compõem uma arquitetura política equivocada: “os grilhões da ideologia verde, a migração em massa de esquerda e a redistribuição socialista”. Repetiu previsões alarmistas — que devem ser interpretadas como posicionamento político — segundo as quais o vice-chanceler e ministro das Finanças, Lars Klingbeil (SPD), planeja contrair no próximo ano “500 bilhões de euros” em novo endividamento, cifra que Weidel qualificou de “claramente inconstitucional”.
No mesmo tom, a líder da AfD afirmou que a Alemanha estaria a caminhar para a “bancarotta do Estado”, com perda mensal de 12.000 postos de trabalho na indústria e deslocalização de empresas. Segundo ela, apenas o “setor público e a indústria do asilo” crescem no país. Em relação à segurança interna, Weidel falou em “ruas inseguras”, aumento da criminalidade e de delitos sexuais, citando a cifra de “mais de 750 estupros coletivos por ano” — dado que, na argumentação parlamentar, serve como evidência para sua tese sobre a necessidade de medidas migratórias rigorosas e expulsões de imigrantes cujo pedido de asilo teria sido rejeitado múltiplas vezes.
No plano exterior, Weidel acusou Berlim de alimentar uma “propaganda de guerra” e de intensificar o confronto com a Rússia — uma leitura que enquadra a política externa alemã como peça num tabuleiro maior, no qual os interesses transatlânticos e as pressões geoestratégicas americanas teriam sua própria dinâmica. “Os Estados Unidos estariam tentando encerrar a guerra na Ucrânia”, disse, alegando que a Alemanha estaria rompendo os últimos pontes com Moscou para desviar atenção de um “bilancio politico desastroso”.
Foi nesse contexto que o líder da CDU, Friedrich Merz, assumiu um tom acusatório e solene: responsabilizou a AfD por posições e retóricas que, em sua avaliação, beiram a defesa de práticas de limpeza étnica. A declaração de Merz — pesada e intencionalmente calibrada — inscreve-se num esforço de estabelecer limites retóricos e institucionais diante da radicalização política, numa tentativa de conter deslocamentos estratégicos que poderiam comprometer os alicerces da democracia parlamentar.
O contraponto entre as falas de Weidel e Merz desenha, num registro quase cartográfico, a atual tectônica de poder na Alemanha: um eixo de polarização que redesenha fronteiras invisíveis entre legitimidade e extremismo, entre crítica fiscal e alarmismo identitário. A discussão sobre o orçamento da Chancelaria, assim, deixa de ser mera contabilidade para se transformar num movimento decisivo no tabuleiro político, com implicações para estabilidade da coalizão e para a governação federal.
Em última análise, a sessão do Bundestag expôs a fragilidade dos consensos recentes e o risco de erosão dos pactos institucionais. A disputa verbal entre Merz e Weidel deverá reverberar nas próximas campanhas regionais e nacionais, e servirá como barômetro para a capacidade das forças democráticas de sustentar, com firmeza e prudência, os alicerces da diplomacia e da ordem constitucional.

