Pobreza energética força europeus a renunciar a consultas médicas e viagens enquanto custos de combustível sobem
Pesquisa mostra que europeus adiam consultas médicas e viagens para pagar energia e combustível, com 73% temendo não cobrir custos do combustível.
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Pobreza energética força europeus a renunciar a consultas médicas e viagens enquanto custos de combustível sobem
Por Marco Severini — A insegurança económica está a transformar‑se numa condição estrutural em grande parte da Europa, e a pobreza energética tem vindo a alargar as fraturas sociais com uma lógica quase tectónica: famílias que eram apenas vulneráveis ontem tornam‑se precárias hoje.
Um inquérito anual conjunto da Ipsos e do Secours populaire français, realizado com 10.000 adultos (≥18 anos) em França, Alemanha, Grécia, Itália, Moldávia, Polónia, Portugal, Roménia, Reino Unido e Sérvia, mostra uma imagem preocupante. Cerca de 29% dos europeus declaram viver em condições precárias e 73% temem não conseguir suportar os custos do combustível. O relatório confirma que a combinação de choques geopolíticos — a guerra da Rússia na Ucrânia e o conflito no Médio Oriente — voltou a pressionar os preços da energia e dos combustíveis.
Num movimento que recorda um lance decisivo no tabuleiro geopolítico, o Brent ultrapassou os 100 dólares por barril a 9 de setembro, num momento em que ataques à navegação comercial no Estreito de Ormuz reacenderam riscos de oferta global. Entre os países analisados, os cidadãos da Grécia, Itália e Portugal revelam maior preocupação com as despesas de combustível.
Em Portugal, no dia 7 de setembro, os preços da gasolina e do gasóleo atingiram níveis recorde — o maior salto nos últimos quatro anos e o preço do gasóleo no ponto mais alto de sempre.
Os efeitos práticos sobre o quotidiano são graves. Mais de um em cada três europeus abandonou despesas importantes — desde compras essenciais até consultas médicas — para conseguir pagar contas de energia ou combustível. Em Moldávia e Grécia, as renúncias são até três vezes superiores às observadas na Alemanha e no Reino Unido. As primeiras concessões dos lares são habitualmente férias e deslocações para visitar familiares que vivem longe; três em cada dez europeus disseram ter deixado de usar o carro para ir trabalhar, mesmo que isso implique trajetos muito mais longos.
Particularmente alarmante é que 23% dos entrevistados admitiram ter perdido ou adiado atendimentos médicos por causa da escalada dos custos. Esta é uma erosão lenta e silenciosa dos alicerces do bem‑estar social: quando a saúde passa a ser uma variável sacrificável, a resiliência das sociedades diminui.
Para equilibrar orçamentos, os europeus adotaram estratégias variadas: desde reduzir ou desligar o aquecimento, tomar duches frios até evitar o uso de certos eletrodomésticos. Quase sete em cada dez implementaram pelo menos uma medida de corte de gastos energéticos, e pouco mais de metade declarou ter adotado várias medidas. Os franceses e os gregos são os mais propensos a apagar o aquecimento em divisões, enquanto na Moldávia prefere‑se não ligar determinados aparelhos domésticos.
Do ponto de vista estratégico, trata‑se de um desafio multifacetado: as rupturas no fornecimento e os choques de preços são sintomas, mas as soluções exigem coordenação europeia, redesenho de políticas sociais e políticas energéticas com visão de longo prazo — um movimento de peças que exige cálculo, previsibilidade e solidariedade entre Estados.
Enquanto as capitais ajustam as suas jogadas diplomáticas e económicas, milhões de cidadãos europeus seguem a sua vida privada gerindo calor, deslocações e cuidados médicos numa lógica de contingência. A estabilidade social e a coesão política dependem hoje tanto de intervenção pública eficaz quanto da capacidade de antecipar e mitigar futuros choques no tabuleiro global.

