Educação na UE: menos de 30% dos professores recebem formação em inteligência artificial
Relatórios da UE revelam: apenas 29,7% dos professores recebem formação em inteligência artificial; desigualdades entre sistemas exigem ação integrada.
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Educação na UE: menos de 30% dos professores recebem formação em inteligência artificial
Bruxelas — A Comissão Europeia publicou, em 22 de setembro de 2026, dois relatórios que mapeiam a integração das tecnologias digitais e da inteligência artificial nas escolas do bloco. As conclusões desenham um panorama de avanços desiguais e alicerces ainda frágeis na preparação de professores e sistemas escolares para a próxima era educativa.
Roxana Mînzatu, comissária europeia para a Cultura, sublinhou que as tecnologias digitais, incluindo a IA generativa, “estão rapidamente transformando como vivemos, trabalhamos e aprendemos”. Os estudos devem informar o próximo pacote legislativo e de políticas da Comissão sobre educação digital, com foco em competências básicas, na formação de docentes e na infraestrutura necessária para que a tecnologia sirva efetivamente os cidadãos.
O primeiro relatório, intitulado "Amigo ou inimigo? Evidências sobre o uso da inteligência artificial generativa no ensino e na aprendizagem", centra-se na necessidade de dotar os professores de uma formação inicial e contínua adequada para tirar proveito das ferramentas de IA. O diagnóstico é claro: apenas 29,7% dos docentes na União Europeia participaram de atividades de formação contínua específicas sobre o uso da inteligência artificial para o ensino. Uma maioria significativa, 53%, não participou e não expressou uma necessidade forte por esse tipo de formação, enquanto o restante — cerca de 22% — relata ter recebido formação, mas sem perceber uma necessidade premente de aprofundamento.
O segundo estudo, "Educação digital nas escolas da Europa 2026: colmando as lacunas no acesso, ensino e aprendizagem", evidencia a heterogeneidade entre sistemas nacionais e entre escolas dentro dos países. Persistem diferenças em termos de acesso à conectividade, suporte técnico e ambientes digitais. No que se refere à IA, quase dois terços dos sistemas escolares europeus já elaboraram estratégias, orientações ou quadros políticos sobre o tema. No entanto, apenas cerca de um terço dos currículos nacionais incorpora competências relacionadas à inteligência artificial, com maior incidência em países da Europa Ocidental e Meridional.
Esses elementos serão instrumentos de orientação para a Comissão no desenho do próximo pacote sobre educação: uma tentativa de redesenhar, com método e prudência, as políticas que moldarão o ensino nas próximas décadas. A mensagem de Mînzatu é pragmática e dirigida aos alicerces do sistema: a tecnologia deve estar “a serviço dos cidadãos” e os instrumentos digitais precisam, de fato, sustentar o processo de aprendizagem.
Do ponto de vista estratégico, a situação exige uma leitura de longo prazo: formar docentes em competências digitais e em uso responsável da IA é um movimento decisivo no tabuleiro da educação. Sem essa formação, corre-se o risco de aprofundar desigualdades existentes e de criar fissuras em sistemas que dependem cada vez mais de ambientes digitais integrados. A abordagem recomendada pelos relatórios combina intervenções ao nível das políticas nacionais com apoio técnico e formação contínua, buscando alinhar infraestrutura, currículos e capacidades docentes.
Em termos práticos, a Comissão sinaliza que o próximo conjunto de medidas deverá priorizar: (1) programas de formação inicial e contínua para educadores; (2) atualização curricular para incluir competências em IA; e (3) investimentos em infraestruturas digitais escolares, assegurando suporte técnico e equidade de acesso. Trata-se de uma transição que lembra um redesenho de fronteiras invisíveis — uma tectônica de poder que molda capacidades futuras de sociedades inteiras.
Como analista, observo que a eficácia das medidas dependerá menos de inovações isoladas e mais da construção metódica de capacidades: formação docente sistemática, políticas claras e financiamento coerente. É nesse jogo de paciência estratégica que se decidirá se a União Europeia transformará a promessa da inteligência artificial em ferramenta de fortalecimento educativo ou em mais uma fonte de assimetrias.

