Sa: Paru em Bhaktapur — como o festival que transforma luto em celebração revela o segredo da comunidade Newar
Descubra o festival Sa: Paru em Bhaktapur, onde o povo Newar transforma o luto em celebração com tambores, dança e as estruturas taha:sa.
RESUMO ✦
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Sa: Paru em Bhaktapur — como o festival que transforma luto em celebração revela o segredo da comunidade Newar
Ciao, sou Erica Santini, sua curadora de experiências. Em minha recente jornada pelo Nepal, desembarquei em Bhaktapur e fui envolvida por um festejo que vira do avesso a ideia ocidental de luto: o Sa: Paru. Diferente do silêncio que, tantas vezes, associamos à morte, aqui a despedida pulsa em ritmo de tambores, dança e cores — um verdadeiro carnaval em homenagem aos que partiram.
O silêncio que descrevo muitas vezes tem a textura de ausência: o telefone que fica frio na mão, o prato que sobra na mesa do pós-funeral, a pausa constrangedora quando alguém tenta oferecer palavras. Mas em Bhaktapur, no coração do vale de Catmandu, aprendi que a memória pode ser celebrada com alegria. O povo Newar transforma a despedida em festa e, assim, guia os falecidos rumo à salvação com música, ritual e comunidade.
“Quando as pessoas morrem nas sociedades ocidentais, as pessoas vestem de preto. Lamentam em silêncio – é um momento muito solene”, contou-me Ajay Bahadur Pradhanang, com a serenidade de quem preserva tradições. “Mas, no Nepal, toda a gente se junta e isto transforma-se num carnaval, num verdadeiro momento de alegria para a despedida.” Andiamo: siga-me por entre as ruas de tijolos antigos e sinta a luz dourada que banha as fachadas enquanto os tambores anunciam o cortejo.
O elemento central da procissão são as estruturas de bambu chamadas taha: sa. Estas construções, que substituíram as vacas tradicionalmente usadas no cortejo, são envolvidas em tecido — vermelho para mulheres, branco para homens — e enfeitadas com o retrato do falecido, imagens de Shiva, e um guarda-chuva que protege do sol e da chuva como sinal de respeito. A confecção exige técnica, mãos e corações: vizinhos, amigos e famílias, tenham perdido alguém ou não, se reúnem para tratar cada detalhe.
Há algo de profundamente sensorial no processo: o cheiro do bambu recém-cortado, o toque do pano que é passado com cuidado, o som distante dos tambores que cresce como um mar. É preciso, como diz o provérbio local que ouvi sussurrado entre risos e rezas, uma aldeia não só para criar uma criança, mas para honrar a passagem de uma vida.
O Sa: Paru tem data móvel — acontece após a lua cheia do 10.º mês do calendário lunissolar, entre agosto e setembro — e se manifesta de forma singular em cada cidade do vale de Catmandu. Em Bhaktapur, a celebração revela a força do coletivo: os taha: sa são erguidos em praças e ruas, desfilam ao som de tambores e cânticos, e a comunidade inteira participa do ritual que combina devoção e festa.
Fiquei hospedada a convite do The Nanee, um hotel de charme próximo ao centro histórico. De lá, observei como cada gesto — a colocação de uma fotografia no taha: sa, o acender de uma lâmpada, o entrelaçar de mãos — constrói um mapa de memória que é ao mesmo tempo íntimo e público. É a hospitalidade sofisticada do Newar: discreta, calorosa, profundamente ritualística.
Para quem vem de fora, é fácil interpretar a festa como uma exaltação barulhenta; na verdade, é uma reverência viva. A alegria não apaga a perda — ela a transforma em companhia para quem ficou, em uma celebração que abre portas para a cura. Dolce far niente? Talvez, mas aqui o ócio é preenchido pelo sabor da tradição e pela textura do tempo nas paredes de Bhaktapur.
Sa: Paru convida a repensar o que significa despedir-se. Em vez de recolhimento solitário, oferece uma jornada coletiva onde a morte é atravessada com música, cor e presença. Voltei da cidade com as mãos cheias de histórias, o coração mais leve e a certeza de que, às vezes, o melhor tributo é dançar juntos até que o último tambor nos leve à luz.
Se quiseres sentir essa mistura de fé e folia, andiamo — venha com respeito, curiosidade e os sentidos abertos. Há muito para descobrir no silêncio que vira festa.

