Correggio, profundamente humano: a grande mostra em Dresda que reescreve o roteiro da pintura italiana
Exposição 'Correggio profondamente umano' em Dresda explora sensualidade, história e circulação da pintura italiana. Em cartaz até 10/01/2027.
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Correggio, profundamente humano: a grande mostra em Dresda que reescreve o roteiro da pintura italiana
Por Chiara Lombardi — Em um roteiro que parece extraído de um filme barroco sobre perda e conquista cultural, a história da viagem dos quadros da corte estense para a Alemanha inaugura a experiência que hoje recebe o público na Gemäldegalerie Alte Meister de Dresda. Era um dia de verão de 1746 quando um cortejo de carroças deixou Modena rumo ao norte: levavam 100 obras-primas da coleção estense. O duque Francesco III — pressionado financeiramente pelas guerras de sucessão — foi forçado a vender a colecção. O comprador foi Augusto III, Eleitor da Saxônia e Rei da Polônia, que pagou 100 mil zecchini por pinturas de Correggio, Tiziano, Parmigianino, Velázquez e Veronese.
Esse episódio, longe de ser apenas um lance de mercado, é também um ponto de inflexão na circulação da pintura italiana pela Europa: uma perda para Modena, mas um ganho simbólico para o imaginário coletivo europeu. É esse eco — a sombra longa da transferência de obras — que informa a curadoria de "Correggio profondamente umano", a maior mostra já dedicada ao pintor fora da Itália, atualmente em cartaz até 10 de janeiro de 2027.
Ao entrar na exposição, o visitante é recebido por quatro grandes palestras de altar que pertencem à coleção permanente da galeria. Essas peças inauguram um percurso que combina reverência técnica e investigação psicológica: Correggio não é só virtuosismo lumínico; é retrato de afetos, uma câmera lenta sobre o corpo e o espírito. A sensualidade magistral do artista emerge com força, trabalhando a luz como a melhor diretora de cena para compor emoções.
Uma das últimas salas concentra a pintura mitológica — o que revela o caráter ambíguo e provocador da obra do emiliano. Correggio havia realizado para os Gonzaga de Mantova uma série dedicada aos amores de Júpiter, concebida como presente para o imperador Carlos V. Essas telas, de alto teor erótico, foram decisivas para o lugar que o pintor ocupou na reputação europeia. Entre os temas mais comentados está Leda e o cisne: a obra original sofreu um episódio de vandalismo no século XVIII, quando Luigi d’Orléans, em crise religiosa, desfigurou o rosto de Leda — parte do drama que enfrenta a arte quando cruza os campos do sagrado e do proibido. A peça presente na mostra não é o original de Berlim, mas uma cópia executada por um pintor espanhol que restitui a expressão inaugural de Leda, entregue ao abraço do cisne/Júpiter.
Essa escolha curatorial funciona como um reframe: quando a originalidade é mutilada pela história, a réplica volta a funcionar como espelho do tempo — uma reconstrução que nos permite imaginar o impacto que a obra causou no momento de sua criação. A mostra, patrocinada pela Embaixada da Itália em Berlim, organiza Correggio como um autor profundamente humano — capaz de transformar mitos em anatomia emocional e de escrever, com tinta, o roteiro oculto da sociedade renascentista.
Mais que um passeio por técnicas e datas, a exposição propõe uma reflexão sobre circulação, apropriação e memória cultural. Em cada sala, a pintura de Correggio aparece como um dispositivo narrativo: cores que traduzem desejo, gestos que contam intenções, rostos que preservam segredos. Para quem vem de fora da Itália, a mostra é uma rara oportunidade de reencontro com um artista cuja obra ainda fala, sem subtextos fáceis, ao presente.
Se a arte é um espelho do nosso tempo, a mostra em Dresda nos convida a olhar não apenas para as obras, mas para os caminhos que elas percorreram — e para as histórias que carregam. A jornada dos quadros desde Modena até a corte de Augusto III é, em última instância, parte do próprio enredo que esta exposição busca contar: a história de como a pintura italiana conquistou e redefiniu a paisagem cultural da Europa.

