Stefania Auci: “Os livros são uma segunda vida” — a leitura livre em 'Cunti, storie e romanzi'
Stefania Auci apresenta 'Cunti, storie e romanzi' em Pordenonelegge: os livros como segunda vida e a leitura livre, sem julgamentos.
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Stefania Auci: “Os livros são uma segunda vida” — a leitura livre em 'Cunti, storie e romanzi'
Por Chiara Lombardi — No cenário festivaliero de Pordenonelegge, Stefania Auci apresentou em primeira mão seu novo livro Cunti, storie e romanzi (Mondadori), um mapa íntimo das leituras que moldaram sua existência. Autora do fenômeno editorial I leoni di Sicilia, traduzido em dezenas de países e adaptado pela Disney+ em série, Auci constrói aqui uma autobiografia literária pensada para leitores de todas as idades — com um olhar atento para professores e jovens leitores.
O fio condutor do volume é simples e potente: a leitura como ato de liberdade. "A beleza da leitura é que é democrática — nos permite escolher tudo o que queiramos", disse Auci, ao descrever como os livros representam, para ela, uma verdadeira segunda vida. Essa ideia de liberdade atravessa o livro, onde seleciona obras capazes de iluminar momentos-chave de sua trajetória, desde as primeiras histórias ouvidas na infância até as leituras que deram suporte em crises pessoais.
A infância, explicou a escritora, foi marcada pelas narrações da avó — os famosos cunti sicilianos, muitas vezes em dialeto siciliano. O relato oral obriga o ouvinte a construir imagens internas, rostos e paisagens: um exercício de imaginação que Auci relaciona diretamente ao seu ofício de escritora. Por isso, ela preserva o uso do dialeto quando julga necessário, acreditando que, em certas passagens, a língua regional devolve uma profundidade afetiva e emocional inacessível ao italiano padrão.
No percurso das leituras que apontam sua formação literária aparecem desde as folhas de Topolino, passando por Emilio Salgari e Alexandre Dumas, até Jane Austen, as irmãs Brontë, Luigi Pirandello e Federigo De Roberto. Há, inclusive, a reivindicação de gêneros que às vezes são desdenhados, como o horror, que Auci defende como parte legítima e formativa de sua experiência de leitora.
O livro também é transparente sobre a forma como certas obras se ligam a passagens vitais: a perda do pai, quando tinha trinta anos, encontrou uma espécie de consolo em Harry Potter, que lhe ofereceu uma possibilidade de seguir adiante; anos depois, ao enfrentar a morte da mãe, Auci recorreu a obras como Kolchoz de Emmanuel Carrère e Lettre à ma mère de Georges Simenon para buscar formas diferentes de lidar com o luto.
Mais do que uma coleção de leituras recomendadas, Cunti, storie e romanzi funciona como um espelho do tempo: revela como as palavras atravessam a memória, a identidade e o contexto cultural. Em suas observações, Auci nos lembra que linguagem não é apenas técnica retórica, mas um dispositivo afetivo que carrega camadas históricas e psicológicas. Cada obra citada é um ponto de luz num roteiro oculto da vida — um roteiro em que a literatura atua como companhia, resistência e ensinamento.
Para leitores e educadores, o livro é um convite à liberdade: ler sem autocrítica e com curiosidade, aceitando que os livros podem oferecer múltiplas segundas vidas. No final, a mensagem ressoa como uma ética da leitura: acolher, traduzir interioridades e permitir que a imaginação reconstrua o mundo.

