Silicon Valley tenta nova reaproximação com os democratas enquanto cresce a pressão sobre os data centers
Silicon Valley tenta reaproximação com democratas enquanto crescem protestos e limites a data centers; Nasdaq reage e OpenAI promete maior transparência.
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Silicon Valley tenta nova reaproximação com os democratas enquanto cresce a pressão sobre os data centers
Por Stella Ferrari — A Silicon Valley enfrenta uma nova inflexão estratégica: após dois anos de investimentos e alinhamentos públicos com Donald Trump em troca de uma promessa tácita de menos regras para a inteligência artificial, os barões do setor agora buscam reconstruir pontes com os democratas. O movimento ocorre num momento em que Washington afina mecanismos de fiscalização e a opinião pública local se organiza em resistência sobretudo contra a proliferação de data centers.
Nos corredores de poder do Vale, houve um período em que doações eleitorais, jantares exclusivos em Mar-a-Lago e aparições públicas com o ex-presidente pareciam traduzir-se numa espécie de design de políticas favorável ao setor. Essa aposta chegou a gerar ganhos expressivos de mercado para algumas empresas: posicionar-se ao lado do Executivo resultou, em determinados casos, em uma acelerada valorização em bolsa.
Mas o tabuleiro político mudou. As eleições de meio de mandato devolveram ao Partido Democrata o controle de ambas as casas do Congresso e alguns governos estaduais estratégicos. E assim ficou claro que a AI não é apenas uma pauta técnica: tornou-se um vetor eleitoral capaz de mobilizar eleitores contra expansões industriais mal compreendidas, especialmente quando tangenciam custos de energia, uso de água e isenções fiscais.
Na prática, a reação local foi contundente: em 40 de 41 plebiscitos municipais citados pela reportagem original, os eleitores apoiaram limites ou bloqueios à construção de novos data centers. Estados como Ohio, Texas e Georgia emergiram como palcos do confronto — candidatos democratas, entre os quais figuraram nomes com discurso favorável a moratórias ou regulações mais rígidas, transformaram a ocupação do território e os subsídios fiscais em tema central de campanha. Segundo a consultoria Evercore ISI, Texas, Georgia e Ohio concentram mais de 40% da capacidade de centros de dados planejada nos EUA; o investidor Brad Gerstner chegou a estimar que até 35% das novas obras anunciadas para o ano seguinte podem estar em risco.
O mercado sentiu o impacto com rapidez. Na sessão de 5 de novembro, o Nasdaq recuou cerca de 5,5%, eliminando em torno de 2,5 trilhões de dólares em valor de mercado — uma correção que reflete, em parte, a recalibração do apetite por risco diante de um ambiente regulatório e político menos previsível.
No plano corporativo, a reação varia. A promessa de maior transparência da OpenAI e a busca da Meta por novos interlocutores políticos mostram tentativas de reposicionamento. Em paralelo, investigações federais e iniciativas legislativas em Washington se preparam para examinar práticas, segurança de dados e concentração de poder — o que pode funcionar como freios fiscais e regulatórios sobre a velocidade de expansão do setor.
Para a elite tecnológica, trata-se agora de redefinir a estratégia: calibrar posturas públicas, diversificar alianças e adaptar investimentos à nova geometria política. Em linguagem de engenharia econômica, é hora de revisar a arquitetura do motor que impulsionou a indústria nos últimos anos — freando o impulso quando necessário, mas preservando a capacidade de aceleração onde houver espaço de manobra.
Em suma, a Silicon Valley experimenta uma desaceleração tática: o capital e a influência que outrora abriram portas junto a determinada administração agora precisam ser reavaliados em função de um Congresso mais atento, votações locais hostis e uma opinião pública que aprendeu a transformar infraestrutura em tema de disputa eleitoral.

