Milan x Ferencváros: ultras húngaros fazem ato fascista no Duomo com camisas de Mussolini
Ultras do Ferencváros fizeram ato fascista no Duomo antes de Milan x Ferencváros; faixas, camisas com Mussolini e saudações viraram vídeos virais.
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Milan x Ferencváros: ultras húngaros fazem ato fascista no Duomo com camisas de Mussolini
Por Otávio Marchesini — Em uma cena que misturou espetáculo e provocação política, grupos de torcedores do Ferencváros se reuniram no coração de Milão poucas horas antes do jogo contra o Milan, válido pela fase de grupos da Europa League. O encontro, realizado na praça do Duomo, foi registrado em vídeos que rapidamente se espalharam pelas redes sociais.
Vestidos majoritariamente de preto, os manifestantes desenrolaram uma faixa com os dizeres "Difendiamo l'Europa", acenderam dezenas de fumígenos e exibiram estandartes com mensagens hostis à comunidade Lgbtqia+. Em imagens que circulam em plataformas e aplicativos, parte do grupo realizou saudações que se assemelham a saluti fascisti, enquanto alguns membros ostentavam camisas com o rosto de Mussolini.
O episódio, embora concentrado em um curto período e espaço, tem significado simbólico que extrapola a lógica de apoio a um clube. A escolha do Duomo — um dos locais públicos mais visíveis e carregados de significado cívico em Milão — transforma o gesto em uma afirmação política destinada a ser vista e a repercutir. Em contextos europeus recentes, demonstrações de nostalgia por regimes autoritários têm sido instrumento de grupos de extrema-direita e de facções ultras que buscam afirmar identidade e agenda em espaços públicos e esportivos.
Em termos práticos, os vídeos da manifestação mostraram uma coreografia típica: homens e mulheres em vestuário homogêneo, bandeiras e faixas com mensagens nacionalistas, artefatos pirotécnicos e cânticos sincronizados. A presença de vestuário com a imagem de figuras históricas controversas e de saudações que remetem ao fascismo reabrem debate sobre os limites entre expressão política, apologia de regimes condenados e as regras que regem eventos esportivos internacionais.
Do ponto de vista institucional, episódios assim costumam provocar reações múltiplas: pedidos de esclarecimento e medidas por parte dos clubes envolvidos, possíveis investigações por parte das autoridades locais e da polícia, além de atenção por parte das entidades que regulam competições internacionais. Sem informações oficiais divulgadas até o momento sobre ações disciplinares ou prisões, o registro público do ato já cumpre um papel significativo ao documentar o que ocorreu.
Mais relevante que o choque inicial é a pergunta que fica: que espaço o futebol permite — ou tolera — para demonstrações políticas explícitas e símbolos de exclusão? Para além do espetáculo, estádios e praças são arenas onde memória, identidade e disputa simbólica se entrelaçam. O episódio em Milão é mais um ponto de observação sobre como parcelas do universo ultras instrumentalizam a visibilidade do esporte para projetar narrativas políticas e culturais que desafiam tanto normas sociais quanto a responsabilidade institucional dos clubes e das autoridades públicas.
Enquanto as imagens circulam e repercutem, caberá aos atores formais (clubes, polícia, federações e organismos europeus) decidir se e como responderão. Para o observador atento, trata-se de um lembrete de que o futebol, em sua dimensão pública e simbólica, continua a ser um espelho das tensões sociais que atravessam a Europa contemporânea.

