Como a tecnologia pode transformar os 257 kg de comida desperdiçados por segundo na Itália em valor para a cadeia
Como tecnologia e políticas públicas podem transformar os 257 kg de alimento desperdiçados por segundo na Itália em valor para a cadeia.
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Como a tecnologia pode transformar os 257 kg de comida desperdiçados por segundo na Itália em valor para a cadeia
Na Giornata Internazionale della Consapevolezza sulle Perdite e gli Sprechi Alimentari, celebrada em 29 de setembro, os números que descrevem o desperdício alimentar na Itália soam como um alerta para a arquitetura dos nossos sistemas: mais de 8,1 milhões de toneladas de alimento perdidas por ano — ou o equivalente a impressionantes 257 kg de comida desperdiçados a cada segundo. É nesse cenário que a tecnologia aparece não como um fim, mas como uma camada de inteligência que pode reconectar excedentes a necessidades reais e devolver valor à cadeia.
Mirco Cerisola, Country Director da Too Good To Go Itália, compartilhou com Espresso Italia Tech&Games uma visão pragmática: a digitalização não resolve sozinha o problema, mas altera o fluxo de incentivos e a logística que sustentam o desperdício. Desde 2019, a plataforma já ajudou a salvar mais de 37 milhões de refeições no país, um dado que comprova como ferramentas digitais podem atuar como um canal direto entre pontos de produção, comércio e consumidores.
Do ponto de vista estrutural, a cadeia alimentar italiana apresenta gargalos clássicos: fragmentação de pequenos produtores, rotas logísticas subotimizadas, etiquetagem de validade confusa e falta de integração de dados entre elos. Culturalmente, existe um desajuste entre a percepção do valor do alimento e os incentivos cotidianos — um paradoxo que só se corrige se políticas públicas, empresas e cidadãos reconfigurarem seus hábitos.
Transformar consciência em ação exige mudanças em camadas: regulamentação que incentive a doação e padronize rótulos; sistemas de previsão e gestão de estoque que reduzam excedentes; e plataformas capazes de orquestrar ofertas em tempo real com logística de última milha. Em termos práticos, isso significa aplicar soluções como precificação dinâmica, marketplaces de excedentes, monitoramento por IoT da cadeia fria e algoritmos de previsão de demanda que funcionem como um sistema nervoso para as cidades e para o setor alimentar.
Segundo Cerisola, um dos desafios mais complexos é a adoção tecnológica em estabelecimentos menores, cuja margem operacional é restrita. Aqui, a analogia infraestrutural é útil: instalar uma nova aplicação é como ligar um ramal à rede elétrica de uma cidade — requer padronização, incentivos e suporte técnico. Modelos que reduzam custos de integração e ofereçam ganhos imediatos na gestão de estoque são cruciais para escalar a solução.
Além das ferramentas digitais, existe um papel central para a política pública e para acordos entre atores privados. Medidas fiscais que estimulem doações, investimentos em logística compartilhada e campanhas educativas para reinterpretar o valor do alimento fazem parte do mesmo quadro: cada intervenção atua como um reforço nas fundações do sistema alimentar.
Olhando para frente, a meta não é erradicar totalmente o desperdício da noite para o dia, mas reduzir fricções e redesenhar fluxos. Quando tecnologia, legislação e comportamento se alinham, o que hoje é visto como perda transforma-se em oportunidade — para reduzir emissões, gerar economia circular e restaurar a dignidade de um recurso que deveria ser preservado.
Em resumo: o combate ao desperdício alimentar precisa de ferramentas digitais integradas, políticas claras e mudanças culturais. A experiência da Too Good To Go — com mais de 37 milhões de refeições salvas — demonstra que, com camadas certas de tecnologia e incentivos, é possível transformar o excedente em valor real para a cadeia e para as comunidades.

