Von der Leyen eleva pressão sobre a China para corrigir déficit comercial da UE
Von der Leyen avisa que a UE usará todos os instrumentos comerciais se China não reduzir o déficit recorde; prazo até outubro para acordo.
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Von der Leyen eleva pressão sobre a China para corrigir déficit comercial da UE
Por Marco Severini — Em um movimento que redesenha, com precisão calculada, um novo trecho do tabuleiro geoeconômico entre Bruxelas e Pequim, a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, declarou, nesta quinta-feira, que a União Europeia estará preparada para ativar todos os seus instrumentos de defesa comercial caso as negociações não resultem em uma redução substancial do déficit comercial com a China.
As conversações entre os dois polos foram iniciadas em junho e permanecem tensas. No verão, Pequim impôs restrições que impediram empresas chinesas de colaborar com investigações antitruste promovidas pela UE, enquanto a Comissão Europeia intensificou, de forma notória, as apurações sobre suposto dumping de produtos chineses no mercado europeu. Este duelo de procedimentos indica uma tectônica de poder em movimento — não um rompimento imediato, mas um redesenho de fronteiras invisíveis nas relações comerciais.
Em discurso perante o MEDEF, a poderosa federação empresarial francesa, von der Leyen foi explícita: o diálogo continua essencial, porém deve produzir resultados mensuráveis. "Quando o diálogo não é suficiente, devemos estar prontos a utilizar plenamente nossos instrumentos", afirmou a presidente, numa colocação que mistura firmeza estratégica e contenção diplomática — típica de uma jogada que visa preservar a sustentabilidade das relações sem sacrificar a integridade dos interesses comuns.
Os números que motivam a urgência são objetivos e implacáveis: as importações low cost vindas da China cresceram 45% em cinco anos e, no último ano, a Comissão abriu cerca de 30 investigações de defesa comercial — quase três vezes a média histórica. Hoje, o desequilíbrio é tal que o déficit bilateral já atinge a ordem de um bilhão de euros por dia, um ritmo que obriga Bruxelas a agir com prazos e instrumentos claros.
A Comissão fixou outubro como prazo para alcançar um acordo com Pequim que permita o reequilíbrio do fluxo comercial. No campo das medidas possíveis, figura o chamado instrumento anti-coerção da UE — apelidado em círculos diplomáticos de "bazooka comercial" —, concebido para responder a pressões externas que forcem a União a alterar suas políticas. O mecanismo autoriza, em teoria, contra-medidas severas, como restrições no acesso a contratos públicos ou até a revogação de direitos relacionados à propriedade intelectual, mas sua ativação exige ampla concordância entre os Estados-membros.
O obstáculo político é claro: embora todos os países da UE registrem atualmente déficits com a China, muitos mantêm laços bilaterais substanciais — investimentos, acordos de cooperação e procura por acesso ao mercado chinês. Esse equilíbrio delicado transforma cada decisão comunitária em uma jogada que deve ser calculada para evitar fissuras internas.
Na prática, o que se observa é uma estratégia dupla: intensificar as investigações e, ao mesmo tempo, manter canais de diálogo abertos. É uma abordagem de arquitetura clássica da diplomacia contemporânea — reforçar os alicerces da defesa comercial sem demolir as pontes do comércio. Resta saber se, até outubro, Bruxelas e Pequim encontrarão um caminho que permita corrigir os desequilíbrios sem escalar para uma guerra comercial aberta. No tabuleiro global, essa será uma das partidas mais importantes dos próximos meses.

