Riccardi 100 em Roma: 'Verso l'umano' revisita 70 anos entre fotografia e pintura
Em Roma, 'Riccardi 100. Verso l'umano' reúne 70 anos de história entre fotografias e pintura. Exposição aberta até 29 de novembro.
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Riccardi 100 em Roma: 'Verso l'umano' revisita 70 anos entre fotografia e pintura
Em Roma, a mostra Riccardi 100. Verso l'umano propõe um passeio sensorial e reflexivo por sete décadas que moldaram o rosto da cidade e, por extensão, o imaginário do século XX. Em cartaz até 29 de novembro, a exposição reúne fotografias e obras de pintura que vão da cidade do pós-guerra à era da Dolce Vita, tocando o cinema, a política e as transformações sociais que reescreveram comportamentos e memórias coletivas.
Como uma sala de cinema onde cada quadro é uma cena decisiva, a curadoria organiza imagens e telas em diálogo — ora complementares, ora em contraponto — para revelar o que chamaria de um roteiro oculto da sociedade. As fotografias, frequentemente em preto e branco, funcionam como documentos-síntese: close-ups de rostos, ruas em reconstrução, manifestações, atores e atrizes em poses que já são iconografia. Ao lado, a pintura reintroduz subjetividade e textura, lembrando que a memória também é camada e pincelada, não apenas registro.
Não se trata apenas de nostalgia. A mostra investiga o que a imagem faz ao tempo — como o mesmo cenário pode ser reinterpretado segundo a lente do poder, do entretenimento ou da resistência. Em certos momentos, a sequência de imagens parece um espelho do nosso tempo, refletindo continuidades e rupturas: os modos de ver que emergiram no período da Dolce Vita e que ainda influenciam a iconografia moderna; as estrelas do cinema que se transformaram em símbolos políticos; as ruas que, entre reconstrução e festa, traduziram sonhos e tensões.
Para o visitante contemporâneo, acostumado ao fluxo acelerado da imagem digital, a exposição oferece um convite à desaceleração. Parar diante de uma fotografia antiga é reencontrar um ponto de fuga no qual se desenha o contexto histórico — o cenário de transformação — e, ao mesmo tempo, reconhecer o próprio lugar dentro dessa narrativa. É aí que a curadoria acerta ao montar sequências que funcionam como pequenos enredos: cada sala é um ato, cada obra, um refrão que retorna com variações.
Se a arte é, como gosto de dizer, a semiótica do viral antes do viral, esta mostra prova que a circulação de imagens sempre teve poder de moldar subjetividades e políticas. Riccardi 100. Verso l'umano não apenas documenta um período; convida a ler o roteiro oculto da sociedade que se escondia nas ruas, nos estúdios e nos salões de festejos. Para quem pensa o entretenimento como uma camada da vida pública, a exposição é aula e espelho: uma oportunidade de ver como o passado projetou formatos de desejo, fama e participação que persistem.
Informações práticas: a mostra fica em exibição até 29 de novembro. Vale a pena reservar algumas horas — e atenção — para percorrer com calma. Em tempos de imagens rápidas, encontros como este nos lembram que olhar também é uma forma de memória ativa.

