Morre Tinto Brass: o cineasta que cantou a puberdade coletiva e deixou um mundo sem desejo de transgredir
Morre Tinto Brass: o cineasta do erotismo que simbolizou uma Itália de transgressões e hipocrisia, em um momento em que o sexo perdeu o choque.
RESUMO ✦
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Morre Tinto Brass: o cineasta que cantou a puberdade coletiva e deixou um mundo sem desejo de transgredir
Morreu Tinto Brass, e com ele parece fechar-se um capítulo muito particular da nossa memória cultural. O homem que foi, para tantos, o cantor supremo da pubescência coletiva — o monarca carnevalesco de uma Itália pruriginosa e hipócrita — deixa um legado que já não encontra um público igualmente disposto a escutar. Hoje, na paisagem do entretenimento, há algo de estranho: o sexo perdeu grande parte do seu lugar de choque e promessa, e a transgressão que Brass encarnava soou, para muitos, como um eco de outro tempo.
Brass não era apenas um realizador de cenas; era um arquiteto de humores, um construtor de atmosferas em que o corpo e o desejo funcionavam como espelhos do nosso tempo. O que morre com ele não é apenas uma figura pública, mas um cenário cultural no qual o céu ainda parecia — por um instante — suficientemente próximo para ofertar promessas e escândalos. Essa sensação de promessa é hoje mais difusa: vivemos um reframe da intimidade em que a pornografia, a mercantilização do corpo e a crise da intimidade pública mudaram o significado da transgressão.
Observar a trajetória de Brass é ler o roteiro oculto de uma sociedade que, entre moralismos e liberdades, negociava sua própria imagem. Era um diretor que sustentava uma dialética entre provocação e nostalgia, entre o riso e o escândalo. Não se tratava apenas de mostrar o corpo — era, muitas vezes, uma provocação ao pudor coletivo, um gesto de intervenção no imaginário conservador. Nesse sentido, o seu cinema funcionava como um espelho: devolvia à plateia aquilo que a comunidade preferia não ver de si mesma.
Hoje, no entanto, o contexto mudou. A exposição constante, a saturação daquilo que outrora funcionava como tabu e a transformação dos canais de desejo — das telas de cinema para feeds e plataformas de consumo rápido — fizeram com que a força subversiva do erotismo perca potência. A ironia é que, em um mundo hiperexposto, a capacidade de chocar diminui: o que era transgressão tornou-se parte do ruído de fundo. E é nesse silêncio pós-choque que se fecha o cerne do legado de Brass.
Isso não significa apagar suas contribuições nem reduzir o impacto histórico de sua obra. Pelo contrário: o que resta é uma oportunidade crítica para revisitar o seu trabalho como documento de época — a semiótica do viral antes do digital, a narrativa de um país em transformação. Como observadora deste zeitgeist, sinto que o seu falecimento nos convida a interrogar não somente o que ele fez, mas por que aquilo teve força naqueles anos e por que, hoje, parece tão distante.
O adeus a Tinto Brass é, portanto, também um convite à reflexão: sobre a natureza do desejo coletivo, sobre as formas de censura e de exposição e sobre o modo como o cinema pode agir como espelho e máquina de memória. Em tempos em que o corpo é simultaneamente mercadoria e enigma, o seu desaparecimento lembra-nos que mudar de linguagem não apaga as marcas deixadas pelo passado. O céu, talvez, tenha-se tornado mais alto — mas as pegadas daquela época ainda estão impressas no roteiro coletivo da nossa experiência cultural.
Chiara Lombardi — Espresso Italia

