França exige que Rússia renuncie ao controle de empresas europeias presentes no país
França exige que Rússia reverta administração provisória sobre ativos de Auchan, Nestlé e outras empresas europeias na Rússia.
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França exige que Rússia renuncie ao controle de empresas europeias presentes no país
Por Marco Severini — A República Francesa formalizou uma objeção diplomática sobre a recente administração provisória imposta a várias empresas francesas e europeias ainda operantes na Federação Russa, exigindo que as autoridades de Moscou revertam essa decisão. Em comunicado oficial, o Ministério dos Negócios Estrangeiros afirmou estar em contato direto com as companhias afetadas para acompanhar desdobramentos e assegurar proteção a interesses legítimos.
Segundo relatos da imprensa russa, os ativos de Auchan, da ex-Leroy Merlin e da Nestlé foram confiados a uma entidade russa identificada como L.E.V. Management. A criação dessa sociedade remonta ao final de 2025, e sua direção é atribuída a Andreï Kraiouchkine, identificado como general no contexto russo, conforme levantamento do Novaja Gazeta Europa.
Do ponto de vista societário, é relevante recordar que a família Mulliez controla os grupos vinculados à Auchan e à antiga Leroy Merlin. A filial russa do grupo Auchan emprega mais de 33.000 funcionários e opera 241 pontos de venda, dos quais 62 são hipermercados. A direção local da rede afirmou ter solicitado "esclarecimentos" às autoridades. A Nestlé, por sua vez, declarou publicamente que "toma nota" das medidas.
Em Moscou, o porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, justificou a medida sustentando que as empresas em questão estariam ligadas a "países hostis (...) atualmente envolvidos da forma mais ativa possível em ações militares contra o nosso país". Essa narrativa se insere numa retórica estatal que associa presença empresarial estrangeira a riscos estratégicos quando persistem tensões geopolíticas.
O fenômeno é parte de um padrão mais amplo: inúmeras multinacionais optaram por deixar a Rússia após o início da invasão em grande escala da Ucrânia, em 24 de fevereiro de 2024. Aqueles grupos que permanecem no território passaram a ser alvo de críticas de Kiev, que os acusa de contribuir, direta ou indiretamente, para o financiamento das estruturas estatais russas e, por conseguinte, para o esforço de guerra.
Analistas financeiros citados pela AFP, como especialistas do banco Jefferies, alertam que a prática da confiscação ou do afastamento administrativo de ativos estrangeiros costuma ser "frequentemente" o prelúdio de uma venda forçada ou de uma expropriação definitiva. Em linguagem de bastidores, trata-se de um movimento preparatório no tabuleiro — um ajuste de peças que pode redesenhar fronteiras econômicas sem mudar fronteiras geográficas.
Do ponto de vista estratégico, a exigência francesa representa um esforço para preservar canais legais e negociais, mantendo abertos alicerces frágeis da diplomacia econômica. A resposta de Moscou, contudo, evidencia a tectônica de poder em curso: quando o Estado percebe riscos de segurança nacional, tende a priorizar controle e soberania sobre ativos estratégicos, mesmo ao custo de tensões diplomáticas.
Para as empresas europeias, o episódio reforça a necessidade de mapear riscos políticos como variável central de sua governança, reavaliando modelos de saída, seguros políticos e contingências. Para a União Europeia e Paris, a chave será calibrar pressão diplomática e medidas jurídicas, sem precipitar um colapso de canais que ainda sustentam centenas de milhares de empregos e fluxos econômicos — peças vivas num tabuleiro onde cada movimento tem consequências de longo prazo.
Em suma, este é um momento de escolha estratégica: a resistência francesa busca preservar um conjunto de normas e proteções empresariais; a reação russa pressiona por soberania e controle. Entre esses pólos se desenha, com cautela e determinação, o próximo capítulo das relações econômicas e políticas entre Moscou e a Europa.

