Desinformação desmontada: o falso passaporte que atribui a Zelensky cidadania israelense

Imagem de passaportes israelenses atribuída a Zelensky é falsa; IA gerou o ficheiro e autoridades ucranianas negam. Entenda a desmontagem da farsa.

Desinformação desmontada: o falso passaporte que atribui a Zelensky cidadania israelense

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Desinformação desmontada: o falso passaporte que atribui a Zelensky cidadania israelense

Por Marco Severini — A circulação de uma imagem supostamente mostrando dois passaportes israelenses, atribuídos ao presidente Volodymyr Zelensky e à primeira-dama Olena Zelenska, é mais um movimento na tática de desinformação que visa redesenhar percepções no tabuleiro internacional. A peça visual, amplamente compartilhada em redes sociais, pretende sugerir que a família presidencial ucraniana teria escolhido Israel como país de origem — narrativa que não resiste a uma verificação factual.

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O post original no Facebook, publicado no início de setembro, acompanhava a imagem com uma legenda acusatória: que a pátria real de Zelensky não seria a Ucrânia, e insinuava vínculos diretos com setores do establishment ucraniano e com apoiadores externos. Tais afirmações foram prontamente refutadas por fontes oficiais ucranianas contactadas pelo time de fact-checking The Cube, do Euronews.

Do ponto de vista jurídico e administrativo, há um alicerce claro que desmonta a alegação: desde janeiro deste ano entrou em vigor uma lei que proíbe que altos funcionários públicos ucranianos detenham dupla cidadania. Assim, a ideia de que o presidente ou familiares diretos poderiam ostentar oficialmente passaportes estrangeiros conflita com a norma vigente.

Uma análise técnica da imagem revela ainda inconsistências formais. No falso documento atribuído a Zelenska, o local de nascimento aparece como "República Socialista Soviética Ucraniana" — uma nomenclatura anacrônica. Em documentos oficiais emitidos para cidadãos nascidos na Ucrânia antes da independência, o lugar de nascimento costuma constar como "Ucrânia" e não como a extinta república soviética, que deixou de existir em 1991.

O exame com ferramentas de moderação e detecção de deepfakes (o detector Hive Moderation) confirmou que a imagem foi gerada por inteligência artificial. A composição aparenta ter sido construída a partir de um fac-símile público disponibilizado pelo Council of Europe (Conselho da Europa), apropriado para criar uma ilusão de verossimilhança documental.

Não se trata de um episódio isolado. Desde 2023, passaportes falsos atribuídos a Zelensky e Zelenska circulam em canais pró-Rússia e em redes sociais. Em abril de 2026, uma imagem semelhante ganhou ampla difusão em plataformas como Instagram, X e Facebook, acompanhada de teorias conspiratórias que buscavam transformar o presidente em um agente estrangeiro com metas geopolíticas ocultas.

Elementos triviais do arquivo falso denunciavam a fraude: recortes na imagem que ocultavam partes do documento e até erros de ortografia — o sobrenome do presidente aparece grafado como "Zelensky", quando no site oficial presidencial a transliteração inglesa usada é "Zelenskyy". Pequenos deslizes, porém, raramente impedem o avanço de um boato bem arquitetado.

Como analista que observa a tectônica de poder com um olhar de estrategista, sublinho que campanhas de desinformação funcionam como jogadas de xadrez: visam deslocar a atenção, corroer alicerces de confiança e reposicionar narrativas favoráveis a atores externos. Esta remoção da veracidade — no caso, a fabricação de passaportes — é uma tentativa deliberada de semear dúvida sobre a legitimidade e a lealdade de líderes em momentos de alta tensão internacional.

Em conclusão, a imagem dos passaportes atribuídos a Zelensky e Zelenska é falsa, gerada por IA e contradita por evidências documentais e legais. A resposta mais eficaz a esses movimentos é a combinação de verificação técnica, checagem institucional e relato calibrado, que preserva a clareza estratégica nas relações internacionais.

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