Porto de Ceuta entra em colapso: milhares de migrantes retornam às praias e tensionam a cidade
Porto de Ceuta entra em colapso: milhares regressam às praias após centro temporário atingir lotação. Tensão, evacuações e apelos à UE.
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Porto de Ceuta entra em colapso: milhares de migrantes retornam às praias e tensionam a cidade
Por Marco Severini — A operação de desocupação das praias de El Trampolín e de Benítez começou nas primeiras horas de sexta-feira com amplo contingente da Guardia Civil e da Policía Nacional. A ação tinha por objetivo transferir os migrantes para o novo centro de acolhimento temporário montado no porto de Ceuta, concebido para abrigar 1.700 pessoas.
Contudo, a manobra encontrou um tabuleiro já em movimento: em ambos os acampamentos permaneciam mais de 4.000 pessoas. A insuficiência de vagas no porto fez com que mais de dois mil migrantes voltassem a instalar-se nas praias, enquanto, segundo fontes governamentais, cerca de 3.000 continuavam nas ruas da cidade.
O deslocamento não ocorreu sem tensão. Foram registadas fugas e corridas entre os acampados e a Unidade de Intervenção policial teve de efetuar disparos para o ar com o propósito de conter o grupo. As autoridades locais relatam que não houve incidentes graves, mas o episódio sublinha a fragilidade logística e humana do sistema de resposta.
A falta de espaço obrigou também à suspensão das limpezas previstas nas areias. Assim, a faixa de El Trampolín mantém a mesma imagem dos dias anteriores: tendas improvisadas, barracas, uma área transformada em mesquita e um pequeno mercado ambulante onde se comercializam pão, tabaco, biscoitos e roupas; entre as tendas foram montadas cozinhas de fortuna.
Os 1.700 migrantes que conseguiram lugar no porto passaram a primeira noite na estrutura mais ampla erguida em Ceuta desde a onda massiva de finais de julho, sem relatos de problemas relevantes. Ainda assim, o quadro geral é de pressão contínua e de recursos no limite.
A vice‑presidente de Ceuta, Kissy Chandiramani, descreveu a transferência como caótica, sublinhando que nem o Governo da cidade nem a autoridade portuária tinham sido previamente avisados — um movimento estratégico mal anunciado que elevou a tensão ao longo de todo o dia, agravado pela coincidência com o início do ano escolar na escola junto à praia do Trampolín.
Chandiramani pediu celeridade nos processos de repatriação, advertindo que, sem ações rápidas, Ceuta corre o risco de se transformar no “grande CETI do Norte de África”, numa referência aos Centros de Estadia Temporária para imigrantes. Ela reclamou também o apoio da União Europeia, que, segundo a vice‑presidente, ainda não foi acionada apesar do evidente colapso local. Atualmente, são processados cerca de cem dossiers por dia; com mais recursos, estimou‑se que o mesmo trabalho poderia ser finalizado em quinze dias. No ritmo atual, advertiu, a situação tenderá a arrastar‑se indefinidamente.
A crise atingiu, por fim, o Parlamento. O porta-voz da Izquierda Unida no Congresso, Enrique Santiago, defendeu o reforço de fronteiras sem abdicar dos direitos humanos e advertiu o PSOE de que o apoio do seu partido a qualquer reforma da lei de imigração dependerá do conteúdo e das garantias sobre proteção e procedimentos.
Do ponto de vista estratégico, Ceuta reformula mais uma vez as linhas de força do Mediterrâneo ocidental: um movimento decisivo no tabuleiro onde se cruzam soberania, dignidade humana e capacidade administrativa. A cidade expõe os alicerces frágeis da diplomacia e a necessidade de um redesenho de responsabilidades entre Madrid e Bruxelas, sob a pressão de fluxos que continuam a redesenhar fronteiras invisíveis e a provocar uma tectônica de poder na região.

