Quatro países da UE reabrem debate sobre uso de €210 bilhões em ativos russos para financiar a Ucrânia
Quatro países da UE propõem estudo para usar €210 bilhões em ativos russos congelados como suporte financeiro à Ucrânia.
RESUMO ✦
Sem tempo? A Lili IA resume para você
Quatro países da UE reabrem debate sobre uso de €210 bilhões em ativos russos para financiar a Ucrânia
Por Marco Severini — Em um movimento que redesenha, de forma silenciosa e meticulosa, um novo segmento do tabuleiro geopolítico europeu, Suécia, Países Baixos, Espanha e Polônia reapresentaram à diplomacia da União Europeia uma proposta para reaproveitar os ativos russos atualmente congelados no bloco. A iniciativa, dirigida ao Alto Representante da UE, Kaja Kallas, e à ministra das Relações Exteriores da Irlanda, Helen McEntee — neste momento à frente da presidência do Conselho — visa encontrar mecanismos jurídicos e financeiros capazes de converter esses recursos em apoio sustentável à Ucrânia.
Os números, que funcionam como uma peça central na tectônica de poder entre Moscou e o Ocidente, não passam despercebidos: a União Europeia detém cerca de 210 bilhões de euros em bens russos congelados, em grande parte custodiados na Bélgica por meio da instituição de liquidação Euroclear. Importa sublinhar que, até o momento, não se trata de uma confisca definitiva; os ativos foram bloqueados no âmbito das sanções e qualquer mudança de estatuto suscita uma complexa teia de questões legais, financeiras e políticas.
A carta, de origem sueca e assinada por representantes de quatro Capitais que buscam representar as diversas frentes geográficas da Europa — Norte, Oeste, Sul e Leste — pede que a Comissão Europeia e seus técnicos avaliem novas opções para operacionalizar os recursos sem concentrar riscos em poucos Estados-membros. A ideia, nos termos consignados, é distribuir o ônus e evitar que um único país arrole sobre si responsabilidades desproporcionais, algo crucial para sustentar a solidariedade intrabloco.
Não se trata de novidade absoluta: nos meses anteriores já havia sido trabalhada em Bruxelas a hipótese de transformar os 210 bilhões em um empréstimo sem juros destinado a cobrir necessidades civis e militares da Ucrânia, com salvaguardas que permitissem eventual restituição à Rússia no futuro, como parte de um regime de reparações. O projeto procurava parar antes da expropriação definitiva, mantendo um caminho jurídico reversível conforme desdobramentos políticos.
Porém, o nó prático e simbólico permanece na Bélgica, que abriga o depósito centralizado da maior fatia desses ativos. A preocupação belga, explicitada pelo primeiro-ministro Bart De Wever, é clara: o risco de litígios e pedidos de indenização por parte de entidades russas pode transformar a operação em um pesadelo financeiro para o país hospedador. A Euroclear também já manifestou reservas, destacando perigos para a confiança dos investidores e para o funcionamento dos mercados.
A Comissão Europeia respondeu, por meio de porta-voz, que está pronta a oferecer assistência técnica e a estudar com atenção a correspondência. No entanto, o desfecho dependerá de um cálculo político mais amplo — um xadrez onde se pesam eleitorados domésticos, exposições públicas e a inevitável aproximação da temporada eleitoral de 2027 em várias capitais europeias.
Em suma, a proposta dos quatro países retoma um tema central para a estratégia europeia de suporte à Ucrânia: como transformar um vasto estoque financeiro imobilizado em instrumento de resistência e reconstrução, sem desestabilizar pilares jurídicos e institucionais que sustentam a própria ordem europeia. É um movimento decisivo no tabuleiro, cujo sucesso exigirá alicerces jurídicos sólidos, mutualização de riscos e, acima de tudo, consenso político entre Estados cuja coesão tem sido testada nos últimos anos.

