Bob Dylan lota Palazzo dello Sport em Roma: aos 85 anos, o poeta do rock dita seu próprio roteiro
Bob Dylan lotou o Palazzo dello Sport em Roma; espetáculo íntimo, 6.000 presentes, arranjos desconstruídos e política phone-free no Lights of Autumn Tour.
RESUMO ✦
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Bob Dylan lota Palazzo dello Sport em Roma: aos 85 anos, o poeta do rock dita seu próprio roteiro
Não se viu muito, mas ouviu-se tudo. Em uma noite que mais parecia a cena inicial de um filme cult sobre a intimidade do espetáculo, Bob Dylan reuniu 6.000 pessoas no Palazzo dello Sport — casa totalmente sold out — para a parada romana do Lights of Autumn Tour. Para muitos, foi uma imersão sem filtros; para outros, uma lembrança da rigidez do mercado: cerca de 1.500 fãs ficaram do lado de fora após comprarem bilhetes falsos em sites não oficiais.
Com 85 anos, o cantor e compositor americano manteve a estética do descompromisso calculado. Nada de telões gigantes, efeitos luminosos extravagantes ou cenário barroco: no palco, uma simples cortina preta que, sob luzes sutis, ganhava tons esbranquiçados. Vestido com uma felpa branca e capuz, ele não buscou a conversa com a plateia — preferiu a música como argumento. A política phone-free transformou o salão num clube íntimo dos anos 70, um verdadeiro convite ao escuro, ao silêncio e ao som como espelho do nosso tempo.
O Nobel de Literatura de 2016 seguiu fiel a uma postura já conhecida: reservado, distante, sem interações entre as canções. A noite teve cerca de 18 faixas executadas em sequência, sem intervalos, e com arranjos completamente desconstruídos. Muitos dos clássicos foram recriados a ponto de tornarem-se quase irreconhecíveis nos primeiros acordes — um procedimento que testa o desejo do público por nostalgia e, ao mesmo tempo, rejeita qualquer compasso com o esperado.
A abertura coube a Watching The River Flow, com Dylan sentado ao piano, instrumento que não deixou durante toda a apresentação, e acompanhado por uma banda enxuta de quatro músicos. Sua inseparável harmônica apareceu pontualmente em Under The Red Sky e no final, em Every Grain of Sand. Ao fim do show, depois de um gesto quase mecânico de virar-se de costas, ele cedeu à atmosfera e permaneceu por alguns instantes, recebendo a longa ovação em pé do público — cena que dialoga com a ideia do artista como menestrel moderno, que tanto ocupa quanto se esquiva do palco.
Piada ou liturgia, isso é Bob Dylan. Seus verdadeiros fãs já sabiam que não viriam explicações ou versões prontas das canções. A atuação descreve o artista como um roteirista que reescreve suas cenas para nos obrigar a olhar de novo: o que nos toca não é a reprodução, mas o reframe da obra. A passagem por Milão e a próxima escala em Bolonha, no dia 7 de novembro, reforçam que o Lights of Autumn Tour é menos um desfile de sucessos e mais um ensaio sobre memória e identidade.
Houve ainda relatos de encontros privados durante a estadia romana, com menções à sua presença em locais institucionais da cidade; detalhes oficiais, porém, permanecem escassos. Em tempos de espetáculos desenhados para virar imagem nas redes, a escolha por uma experiência presencial, sem filtros e quase ritual — uma noite de música onde o som manda e a imagem economiza — é o roteiro oculto que Dylan continua a escrever para a sua plateia.

