Comissão Europeia desafia Estados-membros: menos comissários e menos unanimidade no tabuleiro da UE

Comissão Europeia propõe reduzir comissários e limitar unanimidade para agilizar decisões e preparar novo alargamento da UE.

Comissão Europeia desafia Estados-membros: menos comissários e menos unanimidade no tabuleiro da UE

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Comissão Europeia desafia Estados-membros: menos comissários e menos unanimidade no tabuleiro da UE

Por Marco Severini — A Comissão Europeia apresentou um conjunto abrangente de propostas destinadas a adaptar as estruturas e o processo decisório da União Europeia a um cenário com 30 ou mais países. No centro do pacote está a sugestão de redução do número de comissários e um uso mais restrito do princípio da unanimidade, um movimento que busca testar o grau de disposição dos Estados-membros a aceitar reformas internas sem recorrer à revisão dos tratados.

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Segundo a comissária para o Alargamento, Marta Kos, a avaliação da Comissão conclui que, em muitas políticas, a União já está preparada para um novo alargamento. “A pergunta principal foi: a UE está pronta para outro alargamento? E a resposta é claramente sim”, declarou Kos, enfatizando que o processo proposto pretende tornar as decisões mais eficazes sem violar os instrumentos jurídicos existentes.

Entre as mudanças técnicas, Bruxelas propõe identificar áreas onde ativar as chamadas cláusulas passerella — mecanismos que permitem ao Conselho passar da unanimidade para a votação por maioria qualificada (QMV). Importante ressalvar: a ativação dessas cláusulas requer hoje, por sua vez, unanimidade, o que torna o instrumento um exercício de calibragem política tão delicado quanto estratégico.

Não se trata de uma novidade teórica. A discussão sobre alargar o uso do voto por maioria qualificada é antiga, especialmente nas áreas de política externa e segurança, onde um veto singular pode neutralizar a capacidade geopolítica da União. No mês passado, uma carta conjunta subscrita por 11 Estados, incluindo França e Alemanha, defendeu a busca de soluções para limitar vetos obstrutivos em política externa, com referência explícita ao princípio da cooperação leal e a maior uso da chamada abstensão construtiva.

Kos reconheceu a diversidade de posições entre as capitais: “Não será fácil, mas vale a pena tentar.” Um campo específico apontado para menor dependência da unanimidade é o processo de adesão. A Comissão propõe reduzir o número de decisões que exigem consenso total, substituindo-as por decisões por maioria qualificada sempre que possível, para agilizar a concessão de estatuto de candidato e o encerramento de capítulos negociais — fases que hoje garantem a cada Estado-membro poder de veto em cerca de 150 etapas.

Outra ferramenta que ganha relevo é a cooperação reforçada, permitindo que um grupo mínimo de Estados avance em integrações mais profundas quando persistem bloqueios. Exemplos recentes que ilustram essa dinâmica são o instrumento de apoio à Ucrânia — do qual Hungria, República Checa e Eslováquia optaram por não participar — e a criação da Procuradoria Europeia.

Em termos estratégicos, a proposta da Comissão funciona como um movimento decisivo no tabuleiro: não derruba os alicerces dos tratados, mas redesenha, com cautela, as linhas de influência e as margens de manobra. Esperam-se resistências em várias capitais, sobretudo daquelas que temem perda de soberania nas decisões sensíveis. Ainda assim, o documento representa uma tentativa de atualizar a arquitetura institucional antes que pressões externas e novos alargamentos desajustem por completo os mecanismos de tomada de decisão da União.

Num mapa geopolítico em mutação, as propostas de Bruxelas são uma jogada de longo prazo — uma tentativa de fortalecer a coesão e a operatividade da UE sem recorrer ao caminho espinhoso da revisão dos tratados. Resta ver se os Estados-membros aceitarão mover suas peças nessa direção.

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