Mais sombras que luzes na economia verde italiana: Pichetto alerta para a dependência energética
Relatório 2026: Itália enfrenta atrasos nas renováveis, alta dependência energética e aumento de emissões; economia circular é ponto positivo.
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Mais sombras que luzes na economia verde italiana: Pichetto alerta para a dependência energética
Rimini, 3 de novembro de 2026 — Em um diagnóstico sóbrio apresentado na abertura dos Estados Gerais da Green Economy durante a Ecomondo, a Relazione sullo Stato della Green Economy 2026 pinta um quadro em que a Itália registra mais sombras que luzes. O ministro do Meio Ambiente e da Segurança Energética, Gilberto Pichetto Fratin, sintetizou o tom do relatório: a dependência energética externa é "nefasta" e compromete a autonomia estratégica do país.
O documento, elaborado pela Fundação para o Desenvolvimento Sustentável e apresentado em Rimini, expõe dados que exigem uma leitura geopolítica: após anos de redução, as emissões de gases de efeito estufa voltaram a crescer em 2025 e apenas recuam de forma marginal em 2026. Entre 2015 e 2024, a Itália obteve uma redução média anual de 7 MtCO2e; contudo, para cumprir o horizonte do Pniec 2030 seriam necessárias reduções de 14 MtCO2e por ano a partir de 2026 — o dobro do desempenho recente.
O capítulo das renováveis revela atrasos significativos. O Pniec fixa uma meta de 39,4% de energia renovável sobre o consumo total até 2030, mas em 2024 a participação era de apenas 19,6% — abaixo da média europeia de 25,2%. Setores-chave mostram lacunas abertas: aquecimento e refrigeração tinham 20% de renováveis em 2024 (meta Pniec: 35,9%), transportes apenas 10% (meta: 34,2%) e, em 2025, a eletricidade renovável atingiu 47%, quando o objetivo é 70% em 2030. Em termos de capacidade instalada, foram adicionados apenas 7,2 GW de renováveis em 2025, contra 23,3 GW na Alemanha e 10,8 GW na Espanha; a trajetória exigirá um ritmo médio próximo a 10 GW/ano para alcançar a ambição nacional.
Não obstante as fragilidades energéticas, a Itália mantém um desempenho notável na economia circular: em 2022 reciclou 86% dos resíduos, frente a 41% da média UE. Outro ponto de fragilidade estratégico é o elevado consumo de água, que coloca o país em posição de máxima exposição entre os Estados-membros.
Edo Ronchi, presidente da Fundação para o Desenvolvimento Sustentável, sublinhou que, no cenário internacional, existem fatores de impulso significativos para a transição, mas o quadro macroeconômico apresenta "espaço fiscal limitado, incertezas econômicas e ameaças climáticas crescentes". A transição ecológica, acrescentou, é uma necessidade estrutural para a coesão socioeconômica e pode ser um motor de inclusão e crescimento.
Do ponto de vista de estratégia de Estado, a avaliação é clara: sem um movimento decisivo no tabuleiro — políticas industriais robustas, incentivo à instalação acelerada de renováveis, reformas regulatórias que removam gargalos e investimentos direcionados em eficiência hídrica e energética — os alicerces permanecerão frágeis. A atual posição de elevada dependência energética externa configura um risco geopolítico que reverbera além do setor ambiental, influindo em relações comerciais, segurança e soberania.
Em termos práticos, o relatório impõe um dilema clássico de política: combinar medidas de curto prazo para reduzir vulnerabilidades com um projeto de longo prazo que reconstrua a matriz energética e produtiva. Trata-se de um redesenho de fronteiras invisíveis — não de mapas, mas de corrigendas na tectônica de poder entre recursos, tecnologia e decisão política. Para quem observa o jogo com visão de tabuleiro, a próxima jogada do Executivo será determinante para transformar sombras em luzes.
Marco Severini — voz de geopolítica e estratégia internacional, Espresso Italia

