Candidatos à UE alertam: novas garantias podem criar 'membros de série B' e pressão política
Candidatos à UE temem que nova cláusula de salvaguarda crie 'membros de série B' e seja usada como ferramenta de pressão política.
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Candidatos à UE alertam: novas garantias podem criar 'membros de série B' e pressão política
Por Marco Severini — Em um movimento que redesenha, com cautela, as coordenadas do processo de adesão, os países candidatos à União Europeia manifestam preocupação com as novas garantias propostas pela Comissão Europeia. A proposta, apresentada na terça-feira, introduz uma cláusula de salvaguarda institucional que permitiria medidas direcionadas contra novos membros em caso de graves violações dos valores europeus e do princípio da leal cooperação.
Segundo o texto apresentado, a cláusula estaria disponível nos primeiros 15 anos após a adesão e poderia culminar, nos casos mais graves, na suspensão do direito de voto. A justificação oficial é pragmática: evitar retrocessos democráticos que, uma vez instalados, sejam difíceis de contrariar. Porém, na diplomacia — como numa partida de xadrez — medidas defensivas podem tornar-se peças de pressão, se mal calibradas.
Em declarações à Euronews, Vsevolod Chentsov, vice-primeiro-ministro ucraniano para integração europeia, afirmou: "Confiamos na União Europeia para que o processo de adesão permaneça ambicioso, credível e previsível, refletindo os progressos que a Ucrânia continua a realizar". Chentsov acrescentou que a integração plena no mercado único é o ponto de partida e que qualquer disposição transitória deve ser "justificada, proporcional e limitada no tempo".
Na prática, entre os candidatos mais avançados — Montenegro, Albânia e Moldova — a reação pública tem sido de cautela e moderação. Nos corredores e reuniões a portas fechadas, contudo, emerge uma apreensão recorrente: que uma salvaguarda concebida como temporária venha a consolidar-se num status permanente, criando uma espécie de "membros de série B" dentro do bloco.
França e Países Baixos têm sido vozes ativas na demanda por garantias mais rígidas, citando a experiência recente com a Hungria sob Viktor Orbán e as dificuldades da UE em remediar o declínio do Estado de direito após a adesão. "Não queremos uma adesão a dois níveis na nossa União", declarou a comissária europeia para o Alargamento, Marta Kos, ao apresentar a medida. "Os Estados devem cumprir padrões elevados de Estado de direito e não devem retroceder depois de entrarem".
Do lado dos candidatos, há ainda inquietação sobre a reversibilidade e os critérios de aplicação. A Comissão sustenta que as medidas são temporárias, direcionadas e sujeitas a revisões periódicas. Mas, como observou Obrad Kesić, chefe da missão da Bósnia e Herzegovina junto à UE: "A Comissão enfatiza o caráter temporário, mas existe um risco significativo de que se transforme em um estatuto permanente. O que acontece se o período de prova for prorrogado repetidamente?"
Além do receio quanto à permanência da cláusula, cresce a suspeita de que instrumentos legais possam ser instrumentalizados para pressão política sobre futuros membros, particularmente nos momentos em que a tremonha das decisões comunitárias exige consenso. Em termos geopolíticos, trata-se de um teste à resiliência dos alicerces da diplomacia europeia: proteger valores fundamentais sem fragmentar a comunidade que se pretende coesa.
O debate agora desloca-se para as instituições e para as capitais: calibrar salvaguardas que sirvam de freio a regressões institucionais, sem minar a previsibilidade e a credibilidade do processo de adesão — uma tarefa que requer precisão estratégica, como um movimento decisivo no tabuleiro, pensado para garantir estabilidade a longo prazo.

